31.5.04

O anjo da guarda e o teste

PROBLEMA 40
Uma comichão na mão e o aparecimento de manchas vermelhas levou-me à farmácia. “Então a alergia já passou?”. Vindo de quem veio, do meu anjo da guarda, fez-me muito bem ao espírito. O pior veio depois. “A alergia está melhor, o problema são agora as mãos”. “Isso também me acontece. Leve este remédio”. Conclusão: tenho de mudar de farmácia… e de anjo da guarda.

PROBLEMA 41
A minha filha Mariana fez-me hoje de manhã um teste. “Pai: pensa num desejo”. “Agora, diz o nome de um animal (“avestruz”). Uma cor (“amarelo”). Um número (“7”)”. “Pai: o teu desejo vai realizar-se quando vires uma avestruz amarela com sete patas”. Uma optimista esta minha filha!

30.5.04

A superficialidade da felicidade

PROBLEMA 38
Hoje sinto uma dose de felicidade, e não é porque fui ao ‘Rock in Rio’, que não fui, ou ter visto “Big Fish”, de Tim Burton, o meu realizador preferido, que de facto vi. Mas ser feliz também é um problema. Um polícia abeirou-se hoje de mim e disse-me: “o senhor é suspeito de alguma coisa. Queira dirigir-se à esquadra mais próxima”. Surpreendido questionei o porquê da minha detenção. “O senhor mantém uma boa disposição que levanta suspeitas”.

PROBLEMA 39
Quando era um jovem universitário, uma também jovem professora de filosofia profetizou em relação à minha pessoa: “Você tem futuro literário, mas tem que ir ao fundo das questões que coloca”. O problema é que ainda hoje continuo a boiar à superfície das coisas.


Vida comprimida

PROBLEMA 36
Descobri que o tempo dos meus dias se comprimiu. Ficou-me a saudade do tempo em que o tempo dos meus dias se dilatava, em que os actos mais banais se tornavam extraordinários, como comprar cromos no Eduardo dos Livros, em Campo de Ourique, ou chutar uma bola no adro da Igreja, ou ainda dar beijos à melhor amiga atrás de uma árvore. Tudo isto vem a propósito porque finalmente ganhei coragem. Escondi-me na casa de banho e medi o meu pénis. Ene centímetros. Tinha a ideia de ser maior. Será que a minha piloca diminuiu?

PROBLEMA 37
Os caracóis em Portugal são um exemplo de felicidade. Têm um modo de vida próprio, muito independente, andam sempre com a casa às costas e ainda conseguem fazer felizes os outros. O problema é que cada vez há menos tempo para os caracóis. Ou para arranjar uma companhia?

29.5.04

O homem e o vinho

PROBLEMA 33
"Il est plus facile au tigre d'être totalement un tigre qu'à l'homme d'être un homme"
Henri Michaux

PROBLEMA 34
A minha irmã Ana Maria de “a vida dos meus dias” lançou ao mar uma garrafa com uma mensagem lá dentro: “Alguém me informa onde posso comprar este vinho [Casal das Freiras], da região de Tomar, aqui perto de Lisboa?” Dei comigo esta manhã à procura em Alverca [fica a 22 kms da capital…] do líquido em causa. Nicles. Encontrei foi a lenda do Casal das Freiras: diz-se que há muitos anos durante uma guerra entre portugueses e castelhanos, duas freiras se refugiaram neste local para fugirem aos horrores da guerra. Como era difícil regressarem ao convento, decidiram ficar por aqui. Sentiam-se em segurança e podiam rezar em paz, visto ser um sítio sossegado. Certa tarde, quando costuravam no pátio da casa por elas construída, uma delas foi mordida por uma osga. A outra ficou sozinha ainda muitos anos, vindo a morrer muito velhinha. Durante muito tempo ninguém soube da sua existência naquele sítio inculto e desabitado, mas acabaram por descobri-la e começaram a chamar áquele sítio ”Casal das Freiras.”
Será que também vou demorar muito tempo até encontrar o vinho?

PROBLEMA 35
A vida é o complemento directo do verbo beber

28.5.04

O chefe

PROBLEMA 31
O chefe sem cabelo chamou-nos ao gabinete e pediu-nos para colocarmos em prática um modelo de liderança mais autoritário. Durante dois dias esforcei-me por corresponder. Passei a falar mais alto, a ser intransigente com os erros e a aplicar castigos. Ao terceiro dia, porém, os meus súbitos convidaram-me para um almoço. “Chefinho, volta a ser como eras. Gostávamos mais de ti”. Reforcei a liderança. O problema é que estava a gostar de ser chefe.

PROBLEMA 32
A arte de representação é terrível. Sabemos antecipadamente o que vamos dizer. O emprego é a peça há mais tempo em cena.

As gatas

PROBLEMA 29
Andar de elevador pode tornar-se numa situação constrangedora. Como a que aconteceu comigo hoje de manhã. Subi de elevador com a Marisa Cruz. A viagem nem um minuto demorou, mas pareceu uma eternidade. “Fixa os olhos em frente, não olhes, não respires, não pisques os olhos, coloca-te com um ar natural e os braços descaídos”, disse para mim próprio. Saí no 4º andar, ela presumo que tenha ido ao 6º por causa de um trabalho para uma revista. Por fim, pude suspirar. “Que te aconteceu, António?”. “O problema é que não aconteceu nada”.

PROBLEMA 30
A minha gata não me larga e devo, desde já, esclarecer que não está com o cio. Foi operada em devido tempo. Desde que chego a casa até que saio, exceptuando as horas em que está a dormir, que infelizmente não coincidem com a minha presença, ela anda sempre atrás de mim. Já tentei várias soluções, como abrir a varanda, dar-lhe o céu para olhar, mas opta sempre por estar perto de mim. E nem portas fechadas me salvam. É um pavor, o ruído estridente das unhas. Dão cabo da madeira e dos meus ouvidos. O problema é que estou a reconhecer-me no comportamento da gata.

27.5.04

A sentença e o anjo da guarda

PROBLEMA 27
Um jovem que, por acaso, é meu sobrinho, sentenciou no "desesperada esperança", que embora o sujeito destes problemas seja "politicamente REPROVÁVEL(...) até escreve de maneira bem mais que decente. Vale a pena". A primeira reacção, confesso, foi a de ficar em fúria pela censura severa que a palavra reprovável acarreta, mas depois de uma consulta no dicionário resignei-me. Tenho problemas que me sobram até ao fim da minha vida. Pude ler: "Política: ciência ou arte de governar os povos ou nações; esperteza"; "Reprovação: julgamento pelo qual Deus exclui um pecador da felicidade eterna, da bem-aventurança". Estou feito ao bife.

PROBLEMA 28
Os problemas da alergia voltaram. Segui à risca os conselhos do meu anjo da guarda [ver problema 5. Tomei durante uma semana uns comprimidos e quando tudo parecia ter voltado à normalidade eis que desde ontem recomecei a espirrar a um ritmo só comparável ao das vitórias do FC Porto nos dois últimos anos. Desconfio que o problema é outro: o meu anjo da guarda quer que eu volte à farmácia.

26.5.04

Dores de cabeça

PROBLEMA 25
Hoje estou com problemas de linguagem. Só me apetece achavascar. Escrever como hei-de preparar a forma de saltar para a cueca da minha colega de trabalho. Enfim, só me apetece carregar nas teclas “Ctrl Alt Del” do meu cérebro e apagar o programa. Nicles para isto.


PROBLEMA 26
Leio algures qualquer coisa como Portugal estar a necessitar de uma revolução, que abra de alto a baixo o país e nos revele sem disfarces as entranhas da realidade portuguesa. Um terramoto idêntico a 1775 , ocorrido na cidade de Lisboa, mas agora a escala nacional não seria mais fácil? O ser humano na adversidade costuma revelar sentimentos de solidariedade muito fortes.
Isto está mau...

Futebol

Problema 24
O FC Porto joga hoje a final da Liga dos Campeões mas eu não alinho na onda do nacional-porreirismo em que o país acordou hoje. Estamos todos mergulhados numa bolha de alegria. Todos? Quero que o Mónaco vença! O futebol é um jogo e não um desígnio nacional. A irritação começou logo pela manhã. Ligo a televisão e ouço a “boa” da Sónia Araújo dizer ao Luís Filipe Menezes: “O senhor é sportinguista mas o seu coração hoje bate pelo FC Porto”. E o que respondeu Menezes? “O meu coração já é mais do FC Porto”. E é isto um sportinguista?

25.5.04

Terroristas

PROBLEMA 21
Urinar nas casas de banho públicas, confesso, é coisa que não me agrada nada. Mete-me nojo. Tento evitar sempre. Mas quando as minhas forças fraquejam, que remédio tenho senão aventurar-me e entrar nesse submundo. Um dia destes tive uma experiência aterrorizadora. Urinei entre dois homens de raça escura e à frente dos meus olhos, na parede, um escrito a tinta deixado por alguém: “Fora com os pretos!”. Nunca mijei tão depressa. Lavei as mãos e saí dali para fora, num passo acelerado e a sacudir a água das mãos. Dei de caras com a empregada de limpeza (personagem típica dos urinóis públicos caracterizada por uma paz de espírito que invejo quando entra no WC e estão homens com a mão na verga a mijar fazendo os mais esquisitos sons) que me repreendeu com veemência numa voz grossa: “A casa de banho tem uma máquina para secar as mãos molhadas”. Que dia…


PROBLEMA 22
Agora todos os dias faço um exame de consciência quando viajo de comboio. Desde que li numa revista que onze indivíduos de origem magrebina foram identificados a realizarem movimentações suspeitas que podem apontar para um atentado em Lisboa a viagem até ao trabalho passou a ser como se estivesse no divã de uma qualquer consulta de psiquiatria. Bem, pelo menos sai mais barato. Um euro e trinta cêntimos. Que mais quero? O pior é o tratamento. Enquanto vou realizando uma auto-análise à minha vida, é ver-me a olhar para o lado, para trás, a desconfiar de toda a gente. Chego ao trabalho a transpirar, exausto.

PROBLEMA 23
Ainda Bush. Lembrei-me hoje que Salazar caiu da cadeira. Como os tempos são diferentes. Ontem a cadeira, hoje a bicicleta O mundo está cada vez mais acelerado. A propósito de correrias, ontem, no comboio, reparei num placar publicitário sobre as doenças do coração: “Vai dar uma volta”, lê-se. Fiz alguma coisa de errado para ser assim ameaçado?

24.5.04

Problemas comezinhos

PROBLEMA 18
A moda do “levezinho” está-me a dar a volta à cabeça. São as receitas para emagrecer, as refeições “light” para manter a linha e que demoram 14 minutos, os sumos, os iogurtes e a peça de fruta a meio da tarde, as conversas, “está óptimo”, “que giro”, “sabe bem”, “adoro”, “hum, queres mais?”. Falam de comida como se de um ser vivo se tratasse. Por mim, prefiro a brutalidade de uma refeição que dure horas. No “Bota Feijão”, em Moscavide, por exemplo, onde se degusta o melhor leitão da Bairrada. Do pão e azeitonas, passando pelo vinho espumante e o leitão até ao whisky, são horas e horas na conversa. Conversas berrantes sobre bola e “boas”. O problema é a sensação com que saio sempre do banquete: uma paz interior e uma felicidade eterna. Não posso lá voltar muitas vezes. Tenho de ter cuidado com o meu espírito.

PROBLEMA 19
Diz-me a minha irmã Graça que hoje em dia as pessoas conseguem comunicar melhor no mundo virtual. Que as tertúlias que se faziam na geração dela se fazem agora na net. Concordo. A ficção da realidade dói muito menos do que a própria realidade. Eu por exemplo tenho um problema: perdi o hábito de beber chá – e comer scnoes - que tanto gostava. Agora vou ao chat das cinco.

PROBLEMA 20
Estou com problemas de estômago. Hoje só falo de comida. Deve ter sido de almoçar mal. Mas a culpa é minha. Resolvi pôr um bife no micro ondas. Resultado: mingou. Acabei a comer uns espinafres que tinha guardado no frigorífico e um bocado de arroz. E revoltado por ter sido vencido pela filosofia “light”. O fenómeno de encolhimento do meu bife deixou-me preocupado. Será que as conversas que ouço por aí, o tipo discurso minimal do “ele é muito girinho”, “um cafezinho, se faz favor”, “um pãozinho de leite” é consequência de um “micro-ondas” qualquer, ainda desconhecido dos cientistas, alojado no nosso cérebro. Estou aterrorizado. Tenho de me vigiar naquilo que digo.

23.5.04

Um dia problemático (continuação)

PROBLEMA 16
George Bush está com problemas. Valha-me isso. Cannes deu uma ajuda para os americanos não votaram nele nas presidênciais. “Fahrenheit 9/11”, do norte-americano Michael Moore recebeu a Palma de Ouro do Festival de Cannes. O documentário estabelece as ligações entre a família Bush e Bin Laden e está ‘proibido’ na América. Coincidência ou não, leio que o presidente dos EUA teve um acidente: caiu da bicicleta de montanha. Bush pedalava acompanhado pelo médico. A terra está a tremer…vou passar a ter cuidado a andar de bicicleta. Se Bush cai…

PROBLEMA 17
Não são só as pontes, os prédios e George W. Bush que caiem. Hoje de manhã houve um acidente num dos terminais do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Uma estrutura inaugurada há menos de um ano e que custou 750 milhões de euros cedeu e causou cinco mortos e três feridos. O problema é que nesta mesma manhã, às 11:30, tive a visita de um pedreiro. Motivo: a varanda do quarto de dormir está a ceder. Vai ser preciso substituir seis! pedras de mármore. Diz ele que foram as chuvas e o tempo quente as causas do sucedido. Mal ele imagina que os quartos de dormir costumam ser o epicentro onde a energia das pessoas comunica mais directamente com as profundezas da terra e origina falhas.Saía-me mais barato mas não lhe vou dizer nada…

Um dia problemático

PROBLEMA 9
Eu nunca penso. As ideias pensam por mim. Os livros que li e amadureceram em mim. Ontem acordei com Gregor Samsa (personagem de “A Metamorfose” de Kafka) aos berros: “Não há nada mais degradante do que termos de levantar-nos sempre tão cedo. O homem deve poder dormir (…) seria despedido imediatamente. Quem abe se isso, afinal e contas, não seria uma boa coisa! (…) darei, então, o grande passo. Agora, porém, devo levantar-me, pois o comboio parte às cinco”. Como se não bastasse, o inspector da polícia de “O Processo”, do mesmo autor, resolveu mostra a sua autoridade: “Claro que está preso mas isso não o deve impedir de ir trabalhar nem de continuar a viver como até aqui”. Um pesadelo!

PROBLEMA 10
O problema é que a vida quotidiana é cada vez mais um jogo político. Um jogo de disfarce, de insinuação, de retórica. De silêncios estudados. Seja no autocarro de manhã na ida para o emprego, na fila para o pão, no barbeiro, no centro comercial. Há quem tenha sempre duas caras e eu caía sempre para o lado do mais forte. Amanhã, por exemplo, cá em casa, é a abertura do ene Congresso das broncas. A minha liderança está em jogo.

PROBLEMA 11
Não consigo revelar-me tal como sou. Fazer emergir os meus defeitos latentes, fazer vir ao de cima o que se mantém oculto, recalcado no subconsciente por todo um sistema policial e repressivo que redunda na minha permanente auto-censura

PROBLEMA 12
Esta auto-censura redunda a maioria das vezes numa tela branca. Quem me dera saber exaltar a cor à maneira fauvista, exagerar a expressão da forma como os impressionistas e provocar situações bizarras à maneira surrealista. O problema é que tenho a ligeira sensação de que estou a começar a ensaiar umas linhas na tela…

PROBLEMA 13 (um dos meus preferidos! o problema, não o número)
Se um problema pode ajudar uma revolução é porque uma revolução pode ser também um problema.

PROBLEMA 14
Hoje acordei com um pensamento estranho. O problema é que não consigo percebê-lo. Deve ser uma consequência do que relatei no problema 9. O pensamento é este: Não é de amor que tenho necessidade mas sim de segurança. Alguém me ajuda?

PROBLEMA 15
A paixão é um problema para mim. Fico perturbado, em desordem violenta. Até uma paixão feliz. De tal forma que se confunde com o sofrimento. Sofro por apaixonar-me para depois apaixonar-me e sofrer por paixão. Um problema esta cabeça.









22.5.04

os primeiros problemas

PROBLEMA 1. A primeira vez custa sempre mais, ainda por cima quando é um problema. Mas a mim, e se calhar já perceberam porquê, os problemas dão-me jeito (vou precisar deles para sobreviver, ok?). Sem os meus problemas não tinha este blog. Hesitei antes de avançar, mas um dia deu-me aquela coisa que nos passa pela cabeça em que sabemos que não podemos fazer mas mesmo assim fazemos e, zás! Descobri. Já tinha assunto. Os meus problemas. Numa “viagem” pelos blogs li, às tantas “têm-me enviado diariamente conselhos sobre como resolver um problema que eu desconhecia que me afectava. Consta que tenho um pénis pequeno... “. Pronto, a resposta estava aí. Vou escrever sobre os meus problemas. Abro aqui um parêntesis para esclarecer que remeto este assunto delicado para posteriores problemas. Ai, ai, lá estou eu a fugir às responsabilidades. Não. Não é nada disso. Apenas tenho um problema: não tenho fita métrica em casa para medir o meu pénis e tirar daí as devidas conclusões. Mas pelo aspecto não me parece mal. Egoísta, mimado, arrogante. Um problema. E faço tudo para que ninguém perceba isso. Como? Sou altruísta, simpático e solidário. Estão a ver o problema, não estão? Sou dois em um. Fantástico.

PROBLEMA 2.
Este não o queria criar. Melhor: podia ter evitado. Mas outro dos meus maiores problemas é não conseguir evitar certas coisas. Não me contive e fui contar aos amigos que tinha um blog. Agora com que cara, por exemplo, apareço no emprego? Vão estar mais atentos a tudo o que faço, o que digo e vão relacionar muita coisa com o blog. Vou ser motivo de conversa. Vai ser um terror… Para eles, espero.



PROBLEMA 3.
Os almoços são um vício. Os jantares pior ainda. O almoço é uma chatice, o jantar um pretexto para não sair da sala. Perceberam o problema?



PROBLEMA 4.
Estou numa fase da minha existência em que não posso ver alcatifas. Esse culto fútil e amaricado do “fofinho”. Exigo o regresso ao chão encerado. Já! Estou com uma puta de alergia que não paro de espirrar!

PROBLEMA 5.
Assim também não. Andei a adiar a ida à farmácia para comprar um remédio qualquer que me fizesse disfarçar um pouco este ritmo alucinante de atchins. Para meu azar encontrei uma simpática enfermeira (?) que sofre do mesmo e aconselhou-me um remédio. Resultado: acabou-se o problema. O problema agora é este: De que mal físico posso agora me queixar?

PROBLEMA 6.
Sou um traficante como não há no mundo. Tenho uma estória [uma pretensão envergonhada de escrever um livro] há 10 anos na mala do meu computador. Acompanha-me para todo o lado e só o mostrei a duas ou três pessoas desconhecidas, em viagens ao estrangeiro. Denominador comum: não percebem uma patavina de português, mas foi sempre um bom pretexto para iniciar uma conversa. Ninguém suspeita de nada. As folhas já estão gastas. O mais fantástico é que nunca mais me aventurei a escrever outro e ainda hoje me interrogo porque continuo a deixar as folhas na mala. O velho problema de não acreditar em mim?

PROBLEMA 7.
Que se fala quando não se fala de trabalho? De trabalho. Tão difícil encontrar alguém com que se possa falar que não de trabalho.

PROBLEMA 8.
Comprei um filme pornográfico. “Beach Bitches”. Não sei se foi por causa da bronca das férias – não há meio de haver uma decisão – ou se foi por causa do problema do tamanho. Descobri que tenho uma mente perversa: até já imaginei fazer sexo com a empregada.

Problema 0

Aquilo que vai acontecer daqui em diante é algo de animador [o problema é que não tenho muito a certeza disso]. Uma espécie de strip-tease da alma. São coisas simples para serem ditas. Se algumas se complicarem pelo caminho e transformarem-se em grandes problemas, então a culpa é minha. Tenho medo [um tema a que vou voltar mais tarde]. Mas vou avançar. É este o maior dos meus problemas. Medo de não corresponder.