30.6.04

Natureza humana

PROBLEMA 96
A Ana (porque será que simpatizo com as Anas?) vive sozinha com dois cães e anda a ler Agustina Bessa-Luís. “Sou perigosa porque conheço profundamente a natureza humana”. O problema é que já não sei quem disse isto, se a Agustina ou a Ana?

29.6.04

Distância

PROBLEMA 95
Escreve a minha irmã Ana Maria: "O cheiro da oficina do meu avô Jacinto, que consertava bicicletas em Ovar. A roda do poço do quintal onde andava de baloiço. O capacete de bombeiro. Um triciclo em ferro que chiava, chiava..." O cágado,as revistas antigas, a ida às camarinhas, os caranguejos em São Jacinto, acrescento eu. O problema é que cada vez que revisito os locais de infância e adolescência uma sensação estranha de distanciamento passa por mim. Talvez o Furadouro/Ovar fique mais perto de mim não indo mais lá.

28.6.04

Super-rato

PROBLEMA 94
Se eu pudesse mudar o passado, mandava repetir todos os jogos de futebol da minha infância realizados no recreio da escola ou no adro da Igreja. Fiquei agora a saber que uma equipa de cientistas descobriu o gene do "Super-Rato" nos humanos. Com o dobro dos músculos e da força dos meus companheiros teria iniciado uma carreira promissora e metade dos jogos que perdi teriam terminado numa alegria incontida. O problema é que segundo consta o "Super-Rato" nunca teve problemas de borbulhas, dores de cabeça, vómitos e coisas assim...

27.6.04

Shrek

PROBLEMA 91
Não quero Santana Lopes a primeiro-ministro. Quem teima em ganhar à custa dos outros já está perdido. Prefiro o Shrek.

PROBLEMA 92
O pior é que a culpa é do Scolari, do Ricardo, do Deco, do Figo, etc, e do...Marcelo Rebelo de Sousa. O truque de lançar o desafio de colocar bandeiras nas varandas distraiu-nos a todos do que se estava a passar. Agora é tarde. Durão, elevado ao estatuto de personagem central do Euro - o homem é entrevistado antes e depois dos jogos na zona reservada aos jogadores - prepara-se para uma transferência milionária, ao jeito do assédio que o milionário russo Abramovich está a fazer aos jogadores do FC Porto.

PROBLEMA 93
É a segunda vez, em dois anos, que um primeiro ministro foge do cargo a meio do mandato.

26.6.04

Estado de coma

PROBLEMA 90
Alguns dias depois, ainda não refeito da tempestade que assolou o meu cérebro, confesso: vi na madrugada de quinta para sexta o meu anjo da guarda no Marquês de Pombal a festejar a vitória de Portugal. Não me viu, mas eu vi-o. Estava feliz. Pela noite dentro, voltei a encontrá-lo, primeiro no Tóquio, depois na Ribeira. Em nenhuma situação reparou que eu estava ali tão perto. Já comprei todos os jornais a ver se aparecia a foto dele. Negativo. Vou ter de esperar até quarta-feira para tirar algumas dúvidas.

25.6.04

Mensagem

PROBLEMA 89
"Acho a ideia dos 'problemas' demasiado rígida...porque é que nao escreves sobre o que te dá na real gana?"

24.6.04

Escondidas

PROBLEMA 88
Não consigo acreditar que hoje vá escrever qualquer coisa. Sinto-me escondido. Na profissão, nas dores que imagino ou naquelas que são reais, nas leituras e até naquilo que vou escrevendo.As pessoas são-me irreconhecíveis também porque elas próprias andam escondidas.

23.6.04

A borbulha (outra vez...)

PROBLEMA 87
A evidência de uma borbulha na minha testa desde há uns dias, somada à ida a casa da senhora minha mãe, fez com que fosse confrontado com um plano maternal para tentar minorar os estragos provocados por aquele ponto inflamado em parte localizada do meu corpo. Um penso adesivo foi a solução encontrada, sem que não tenha deixado de entrar em pânico: a figura que ia fazer no emprego, junto dos amigos, dos outros. Suei, escorri pingos de água só de pensar no que me iriam perguntar. Imaginei ene desculpas, uma briga na rua, um arranhão da gata, um assalto. Depois de derrotado por ko técnico, preparava-me para entrar no elevador que me iria conduzir à porta do emprego quando o telemóvel tocou. "Filho, tens de tirar o penso. Enganei-me, esse não é para as borbulhas. Tira-o que te pode fazer mal". O problema é que estava a habituar-me à ideia de um penso na testa.

22.6.04

As dores de cabeça

PROBLEMA 86
Só no córtex cerebral há três vezes mais células do que habitantes na Terra. Começo, agora, a compreender as minhas dores de cabeça.

21.6.04

A palavra

PROBLEMA 85
Se mercê de alguma catástrofe ao nível da mente toda a linguagem do mundo fosse apagada, e apenas uma palavra passasse para as gerações vindouras, que palavra seria essa? E em que língua seria dita? E por quem?

20.6.04

A mosca e o elefante

PROBLEMA 84
Há quem gosta de se pavonear, levantar a crista por tudo, apresentar-se como o modelo perfeito de todas as virtudes, atribuir a ele próprio muitas qualidades e não reconhecer os defeitos, vangloriar-se de transformar uma mosca num elefante. Por isso, a Espanha perdeu hoje com Portugal. Mas o problema é que entre os sinais que me avisam de que estou mais velho é aperceber-me de que já não vibro com a vitória de Portugal, que dantes resultava numa viva e ansiosa exaltação de coisas espirituais. A mesma coisa acontece-me ao passear por Lisboa: já não sinto a cidade como um incentivo sentimental.Tomada em justa conta a minha fadiga, resulta claro que já não sinto a vida como uma quimera. Antes um porto onde encalhei.

19.6.04

Ameaça

PROBLEMA 83
Abri a caixa do correio e entre os 47 e-mails que tinha recebido, deparo-me com um que me devolveu à realidade. Dizia assim:
“Caro Colega,
No seguimento da adesão ao seguro de vida do Grupo existem certos requisitos a ser atendidos. No seu caso concreto, terá de ser submetido a um Exame Médico simples, sem o qual a companhia de seguros não activa a sua apólice.
Para o efeito deverá entrar em contacto telefónico e falar com a Dª Assunção da Silva para fazer marcação de consulta, que se realiza às 3ªs, 4ªs e 5ªs das 15.00 às 19.00 horas inclusive. O Exame médico será realizado na Av. da Liberdade, nº 36 – 4º, em Lisboa. O tempo de duração estimado para este exame é de cerca de 15 minutos e será realizado por um médico da companhia de seguros, pelo que não tem qualquer custo.
A Companhia de seguros cancela a sua apólice, caso não haja marcação do Exame Médico até ao final do mês corrente.
Cumprimentos.”
Conclusão: corro perigo de vida, estou a ser seriamente ameaçado.

18.6.04

roma

PROBLEMA 82
Há muitas maneiras de recusar um convite. Já levei muitas “negas”, mas como a de hoje nunca me tinha acontecido. Enviei-lhe uma mensagem por telemóvel, se queria ir ao cinema. Respondeu: “oãn ossop. Ouv rarpmoc sun sotapas à Va.Amor. sojieb” Que língua estranha era aquela? Fiquei sem perceber nada, a não ser a palavra Amor, o que me deixou na expectativa. Mas não muito tempo depois recebi outra mensagem. E tudo se esclareceu. “Não posso. Vou comprar sapatos à Av. Roma. Adeus”.
De um momento para o outro lá se foi o amor…

17.6.04

Os outros

PROBLEMA 79
Dou por mim a pensar no que me aconteceu hoje na cervejaria. Entre um prato de caracóis, uma fila de cervejas e uma espreitadela no que os depravados dos ingleses estavam a fazer aos moços suíços, chamou-me a atenção o que estava a ocorrer ali mesmo ao meu lado numa mesa que juntou um grupo de quatro engravatados a pingarem de suor, dois sumptuosos pratos de caracóis e um de moelas, e o milagre da multiplicação das imperiais. Cicrano era, no entanto, o único que não comia caracóis. Numa feliz coincidência, o empregado, que se chama Manuel mas não veio de Barcelona, leu os meus pensamentos e perguntou ao fulano tal se não gostava do bicho mais popular dos dias de calor(é prato de platina, já!). Foi então que fiquei aterrorizado com o que ouvi: “Infelizmente não os posso comer. Tenho alergia aos acnes, fiz umas análises e o médico disse-me que isso está relacionado com os caracóis. É uma pena… Era fanático do caracol.Agora…”.


PROBLEMA 80
Uma descoberta inquietante. Mais uma. Deve ser do calor que nos torna todos iguais. Um outro antónio escreve na blogosfera (livroporvir). E quando o leio uma sensação estranha toma conta de mim, como se me tivesse tornado figura de um livro. Naquele dia foi a fotografia no museu da cidade, agora isto. Serei mais do que um?

PROBLEMA 81
Todos os dias tento apreender, sondar, a minha consciência. Observo hoje que está vazia de mim. Só encontro nela os outros.

16.6.04

Os elefantes têm tromba

PROBLEMA 77
Enquanto subo a montanha, a fadiga vai-se apoderando de mim. Em breve, estarei exausto. Mas o corpo vai avançando. Vou perdendo a razão, a força e a memória. As tarefas rotineiras no emprego vão ficando para trás, as tarefas de casa desaparecendo, uma a uma. Só que quando estou prestes a realizar a minha evasão, o mundo não se esquece de mim e obriga-me a acordar. O despertador. A mulher a ralhar com a filha. A televisão. O rádio. Os ruídos do vizinho de cima. As portas que se abrem e se fecham. A água que corre na torneira. O pão. O leite. A escola. O café. O comboio. O autocarro. O metro. O emprego. As reuniões. Os planos de edição. As enxaquecas que se confundem com as dores de cabeça. O calor.

PROBLEMA 78
Há leis que ninguém ousa alterar. Dois mais dois são quatro, as pessoas crescem de baixo para cima e tornam-se adultas. Estúpidas. Um chefe dá ordens. Um elefante tem tromba. A introdução de novos dados, únicos e originais, no meu cérebro, provocaria um abalo de consequências imprevisíveis.

15.6.04

Eu e a borbulha

PROBLEMA 75
Uma visita ocasional ao museu da cidade resultou numa descoberta inquietadora. Uma fotografia tirada numa rua de Lisboa em 1910 prendeu-me a atenção: lá estava eu. Eu? Que estou ali a fazer?

PROBLEMA 76
O meu anjo da guarda não é bom para mim. Encontrei-o na rua. Cortou o cabelo e o sorriso sobressai ainda mais. Disse-me que eu já não ía há muito tempo à farmácia, logo estava feliz por depreender que estava tudo bem comigo. Fiz um esforço épico para esconder as mãos – num estado lastimável – e uma força hercúlea para não espirrar. Era importante dar uma imagem de vigor. Até que fiquei sem respirar quando o meu anjo da guarda me disse: “Oh! Vejo que tem uma borbulha na testa. Passe pela farmácia, tenho um creme bom para si”.

14.6.04

Bebedeira

PROBLEMA 73
Passei um dia com os adeptos ingleses numa cervejaria ao pé do emprego. Não sei se deram pela minha falta, ou se deram pelo meu estado menos sóbrio quando entrei no elevador. Uma senhora muito simpática questionou o meu estado de saúde. “O senhor sente-se bem? Está pálido”. O pior foi quando cheguei ao computador e escrevi para o pessoal todo: “Que se foda a derrota da selecção. Que se lixe o Euro’2004. Vivam as sardinhas assadas, a cerveja e os caracóis. Vivam as gajas que mostram as mamas. Embebedai-vos e fodei à fartazana”.

PROBLEMA 74
Mas pior foi mesmo ter de ouvir que sou como as moscas, com olhos que detectam movimento mas não focam. É isto que faz continuar sem espelho no elevador do prédio onde moro. E sem cervejas no frigorífico.




13.6.04

Tomates

PROBLEMA 71
Não sei se a morte de Sousa Franco influenciou o resultado das eleições, mas que a morte traz vantagens traz. Dizem-se banalidades emotivas e elogia-se o homem e a obra. E ganha-se. Fehèr morreu e o Benfica venceu a Taça de Portugal; Bruno Baião morreu e o Benfica foi campeão nacional de juniores; Sousa Franco morreu e o PS ganhou as eleições europeias. Alguém com muito sentido de humor anda a escrever a história deste país.

PROBLEMA 72
O problema de David Beckham é um problema português. Andou a mostrar os tomates numa varanda de um hotel de Lisboa e depois não teve colhões para marcar um penalty à França. Antes do jogo beijou Zidane na face e acabou por sair derrotado do campo. O problema de Beckham é Zidane. Zidane é um homem paciente, com uma paciência do tamanho da história do mundo. E um homem letal, que deixa a vítima beijá-lo para depois dar a estocada final. Mesmo ao cair do pano. O meu problema é ter de trabalhar e não ter tomates para chegar ao pé do chefe e dizer-lhe que hoje vou para a esplanada beber umas cervejinhas frescas e comer uns caracóis.

12.6.04

As bandeiras

PROBLEMA 68
Portugal é um país que adora receber bem. Os Gregos que o digam. Portugal é um país que gosta de exultar primeiro e desanimar depois. Somos uns deprimidos.

PROBLEMA 69
Desconhecia a clarividência futebolística da senhora minha irmã. Escreveu ela na véspera do Portugal-Grécia: “Se, por acaso - diabo seja cego, surdo, mudo e paralítico, valha-me nossa senhora da agrela - Portugal, amanhã, perder com a Grécia quantas bandeiras permanecerão nas varandas, janelas e automóveis?”
Pois é: mais vale mostrar talento que bandeiras.

PROBLEMA 70
De país desfraldado passámos a um país de fraldas.

11.6.04

O sono

PROBLEMA 65
A síndrome do dia 11 tomou hoje conta de mim. Lembrei-me do 11 de Setembro e do 11 de Março. O cenário de um atentado na véspera do Euro apoderou-se dos meus pensamentos. Hesitei antes de entrar no comboio, comecei a suar assim que me vi dentro do metro. Quando entrei no centro comercial senti um arrepio na espinha. No emprego, o chão que os meus pés pisam parecia desmoronar-se cada vez que ouvia o barulho de um avião. Suspeitei do empregado da pastelaria e do café que me serviu. Do sorriso da mulher polícia.

PROBLEMA 66
Um estudo norte-americano concluiu que ficar muito tempo a ver televisão provoca perturbações no sono. O problema é que perdi o telecomando. Não perdi foi a preguiça e ontem fiquei horas sentado no sofá a ver um filme sobre o dia que há-de chegar em que as máquinas que substituíram os homens os obrigaram a não mexer numa palha. Caminhamos para isso, mas devagar, tão devagar que quase não se vê…

PROBLEMA 67
"Vedes aqueles entrarem e sairem sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer" (padre António Vieira).
Têm razão os que pensam que a noite é boa conselheira e que se deve dormir primeiro antes de tomar uma decisão importante.

10.6.04

A pequena dor

PROBLEMA 63
Quatro horas de espera no banco de urgências do hospital. Finalmente a minha vez. “Tenho uma pequena dor. O problema é que não sei onde”. O médico fica enfurecido: “Vá para casa descansar e quando descobrir onde sente a dor volte cá!”. Ainda bem que não me mandou fazer um batalhão de análises, senão a minha pequena dor, que não mata mas mói, ainda deixava de ser minha. Assim vou continuar a sentir esta pequena dor, sem saber de onde é. Só sabendo que é minha.

PROBLEMA 64
Fui jogar ténis e perdi. Culpa de Marguerite Duras. Nos momentos em que precisava de estar concentrado, veio-me à memória as palavras de Duras: “Nunca ninguém escreveu a duas vozes. Foi possível cantar a duas vozes, ou fazer música também, e jogar ténis, mas escrever, não. Nunca.” Esta pequena dor estará relacionada com a solidão de escrever?

9.6.04

A morte

PROBLEMA 62
A propósito da morte de Sousa Franco: nunca a política e o futebol estiveram tão próximos. A alta competição mata. Tivemos o exemplo de Fehèr. Agora Sousa Franco. Emprestou o corpo à campanha eleitoral e cansou-se.Que raio de país é este que calça chuteiras, fala futebolês e coloca bandeiras de Portugal em tudo quanto é sítio? Temo que este país se assemelhe cada vez mais a um mero mecanismo de um relógio a que se dá corda para repetir sempre a mesma cantilena.

8.6.04

Esquecimento

PROBLEMA 61
Esqueci-me de regar as plantas, fazer a cama, dar-te um beijo, combinar o fim-de-semana. Esqueci-me. Tenho este problema. De quando em quando fecho as portas e as janelas da minha consciência.

7.6.04

O espelho

PROBLEMA 58
Devo à conjugação de um espelho (a falta dele) e de um elevador um problema de identidade. Reparei hoje de manhã, na viagem diária de 23 segundos, que o espelho do elevador desapareceu. Aquilo que era antes uma soma de mim próprio reduziu-se a um só. Enquanto o meu duplo não regressar, pressinto que esta sensação esquisita de perda não me vai largar. É melhor que voltes depressa.

PROBLEMA 59
Reparei também que falta uma peça no tabuleiro de xadrez. Um peão. É disso mesmo que estou hoje a precisar: de alguém que me ofereça uma prenda.

PROBLEMA 60
Ao sair de casa deparei-me com um dilema. Verifiquei que do lado esquerdo da rua abriu uma clínica dentária, do lado direito uma escola de condução e um barbeiro. Ora, tenho um dente podre a cair aos bocados, tirar a carta de condução é um objectivo há muito adiado e dizem-me que preciso cortar o cabelo. Viro à direita ou à esquerda? O melhor é seguir em frente.

6.6.04

Teletransportação

PROBLEMA 56
Se vierem bater à porta digo que não estou. É que hoje saí à rua e encontrei um ucraniano com um ar misterioso a falar numa cabine telefónica. Uma francesa a namorar ao telemóvel. Um japonês à porta de um restaurante chinês a discutir com o cão. Um inglês podre de bêbado a cantar uma canção dos Queen. Um casal de alemães a olhar para um mapa de Lisboa e a decidir se vai visitar o Castelo de São Jorge ou o Estádio José Alvalade. Uma italiana a comprar um par de sapatos no Centro Comercial.

PROBLEMA 57
No dia-a-dia, deparo a maioria das vezes com situações nas quais sinto um desejo irracional de desaparecer de vista ou, com a velocidade do pensamento, transportar-me para um local distante. Há outros dias em que parece mesmo ter ficado invisível durante um período de tempo e só reaparecer noutro lugar. Serão os efeitos da minha máquina de teletransportação que, após algumas experiências bem sucedidas, está pronta mas só será conhecida no ano de dois mil seiscentos e sessenta e sete?

5.6.04

Ostras e colestrol

PROBLEMA 54
Se me visse obrigado a planear a minha última refeição, escolheria um prato que exige tempo e ócio, estimula a conversa, a intimidade: ostras com muito champanhe gelado. Ostras cruas. Regadas com sumo de limão ou vinagre. E pimenta. E vista para o mar. O problema é que tenho de planear o jantar, e não há suspeitas que seja o derradeiro, e as perspectivas resumem-se a escolher entre um bife mirrado e os restos da carne estufada que sobrou do almoço. Que tragédia!

PROBLEMA 55
Antes que um médico qualquer me diga que tenho uma ponta de colestrol e me espete diante dos olhos com uma dieta especial, presto culto e vassalagem perpétua aos rissóis, bilharacos, bacalhau com natas e favas com chouriço da senhora minha mãe, às azeitonas e aos queijos da minha irmã Graça, aos pastéis de massa tenra da criada da minha falecida avó, ao arroz doce da minha sogra, às idas à Bairrada com os meus pais e às estadas na cozinha do restaurante onde assistia ao espectáculo festivo do processo culinário, ao arroz de Castelões e às conversas do meu cunhado Abel Luís que antecipava o prazer gustativo com descrições ao pormenor do que íamos comer. Que saudade!

4.6.04

As viagens

PROBLEMA 51
Estabeleci como uma das minhas prioridades descobrir uma garrafa de vinho “Casal das Freiras”. Há uma semana que ando em busca do “Graal”. Mobilizei mais gente para esta demanda (isto era para ser segredo).Enquanto aguardo por notícias, pelos meus próprios pés já percorri alguns caminhos perigosos, atraquei em vários portos, conheci pessoas tão diferentes quanto as qualidades de vinho existentes no mercado, mas a resposta é sempre a mesma: “não!”. Pode acontecer que me falte aprender que a minha tarefa está apenas no começo. Sabendo que se viaja sempre para regressar ao ponto de partida, continuarei a procurar nem que seja preciso dar a volta ao mundo para descobrir que, afinal, não almoçamos juntos há muito tempo.

PROBLEMA 52
Duas pessoas sentadas a uma mesa de café falam de quê. No novo filme de Jim Jarmusch falam sobre café e cigarros.Sentados num banco de jardim dois idosos falam de quê. De silêncios e dores.Daquelas viagens que nos esquecemos de fazer ao interior de cada um de nós.

PROBLEMA 53
Há pequenas viagens que nunca devíamos fazer. Na porta do consultório, em letras garrafais, lê-se: “keep it simple, stupid” (“mantém a simplicidade, estúpido”). Pergunto de que se trata. Diz-me o médico que é o princípio universal da simplificação. “É disso mesmo que preciso, senhor doutor. Venho aqui porque sou uma pessoa que tem a mania de complicar tudo. A minha vida e a dos outros”. “Muito bem, vou-lhe passar uma receita. Durante uma semana cumpra à risca: 1) gerir o tempo, com critérios e prioridades. Demasiadas coisas para gerir ao mesmo tempo criam confusão e ainda mais complicação; 2) Não se fixar nos detalhes. Na ânsia de controlar tudo e todos, os complicados dão demasiada importância aos detalhes e perdem-se neles. Centrar a acção na confiança e na eficácia e não nos medos; 3) Relativizar tudo. Aquilo que hoje correu menos bem amanhã pode correr melhor.
Não estou optimista. Nunca fui muito bom a seguir as ordens dos médicos…

3.6.04

Os sapos

PROBLEMA 48
Imagino-me num lago rodeado de montanhas e no meio um castelo flutuante. Onde a chuva intermitente bate ao ritmo das minhas pulsações, o cheiro das folhas deixa-me tonto e sapos saltam de pedra em pedra para capturar as presas com a língua ágil. O meu professor de ciências costumava dizer que os sapos são úteis ao homem porque com o seu grande apetite comem muitos vermes, lagartas e insectos nocivos de várias espécies.
A utilidade do homem já é mais problemática.

PROBLEMA 49
Primeiro somos um qualquer principe encantado, ou uma estrela cadente, depois sapos. A perda da inocência, as brincadeiras que se transformam em crueldade, o despertar do amor quando uma mulher entra no nosso mundo fechado, o poder do ciúme e da obsessão. As relações tumultuosas surgem a seguir. E passamos a engolir sapos.

PROBLEMA 50
Sonhei hoje que era um sapo. Serei, na lógica borgesiana, o sonho de um qualquer sapo? Estou a precisar é de um beijo.

2.6.04

O Tempo

PROBLEMA 45
O coelho da Alice no País das Maravilhas passou por mim esta manhã.“Estou atrasado!, estou atrasado!”. No que me diz respeito, não sei a quantas ando. Não uso relógio de pulso e o de cuco está avariado à espera de uma mão amiga que o devolva à razão de ser para a qual foi elaborado. Estou entregue ao meu ritmo biológico e sujeito a ouvir o que eu tenho para dizer a mim próprio.

PROBLEMA 46
Segundo um estudo científico, acerca da descoberta dos ritmos do corpo, uma das conclusões é a de que a dor sente-se mais cerca das dezoito horas.

PROBLEMA 47
Talvez só em dois mil seiscentos e sessenta e sete é que será descoberto que o autor destas linhas foi, em tempos, o imperador Antoninus Pius. Marcus Aurélius disse de mim: "gentileza e resolução inabaláveis nos julgamentos obtidos após exame minucioso; renúncia às honras exteriores; amor ao trabalho e à perseverança; presteza para ouvir aqueles que têm algo a contribuir para o bem-estar público; o desejo de recompensar cada homem de acordo com seu mérito, com imparcialidade"; Marcus Aurelius menciona ainda " energia na defesa de tudo o que fosse de acordo com a razão, sua equanimidade constante, sua expressão serena, sua doçura, seu desdém pela glória, sua ambição de dominar todos os problemas”.










1.6.04

O rumo e os objectos

PROBLEMA 42
Ando à procura de um som próprio para a minha escrita, um ritmo, um pulsar. Este escrever errante há de me levar a algum lado.

PROBLEMA 43
Jorge Luís Borges imagina o paraíso sob a forma de uma biblioteca. A minha biblioteca é de um inferno que se trata. Reina a desordem, o caos. O amargurado Kafka tem de levar com os delírios de Cervantes, o trágico Shakespeare com o desassossego de Fernando Pessoa. Sempre sonhei ter uma biblioteca que fosse uma ilha no mar revolto que é a minha vida. Pessimista? Optimista difícil…

PROBLEMA 44
As botas de Charlie Chaplin ficam-me grandes nos pés. Os óculos de Fernando Pessoa têm diometrias a mais para os meus olhos; não consigo tocar no trompete de Louis Armstrong e muito menos calçar as luvas de boxe de Muhammad Ali. Muito menos acordar, como a Albert Einstein, com uma tempestade no meu cérebro e desvendar o segredo da Criação. Fico-me pela tentativa de fumar um charuto.“Um bom charuto é como uma bela mulher, primeiro somos atraídos pela sua forma, depois pelo aroma e finalmente pela companhia. Mas nunca se deve apagar a chama” (Winston Churchill)