31.7.04

Olhar

PROBLEMA 127
As coisas vêm, vão e são tão vãs. Como o olhar que ignoro que me olha. E no entanto há-de haver alguém que me olha sem eu saber. Sem eu partilhar esse olhar. Que sei eu da vida?

30.7.04

A Palavra

PROBLEMA 126
De um anúncio no jornal: "Oferece-se um papagaio, que viveu os últimos dias com Hemingway, a quem tiver a paciência de o ensinar a dizer 'vou para o céu'. Ao fim de três dias, o papagaio constipou-se e morreu.

29.7.04

Esquecimento

PROBLEMA 125
Eu sou aquilo que me esqueço. "Infinitamente nos esquecemos de quanto desejamos. Aonde está a mãe da minha infância" (Ruy Belo)

28.7.04

Tempo

PROBLEMA 124
O relógio é mais rápido que a minha escrita.

27.7.04

O livro

PROBLEMA 123
O meu primeiro livro escrevi-o nas paredes dos urinois. O problema é que para o reunir teria de voltar a viajar e a hesitação ante o risco cresce na proporção directa da idade.

26.7.04

Dias intranquilos

PROBLEMA 122
Acabei por voltar ao restaurante japonês. Não tanto pela comida, mas por aquela história dos papelinhos com escritos que acabou por se tornar numa obsessão para mim. Fiquei a saber que as mensagens são tiradas de um livro de Kenzaburo Oé (Dias Tranquilos), Prémio Nobel 1994. A que saiu hoje também não me anima: "O que se aprende em criança nunca mais se esquece. Depois o que há são reverências, imitações, cansaço, vénias a ver quem ganha..."

25.7.04

Vida e Morte

PROBLEMA 121
Tenho medo de não ter sido nada antes de nascer. Tenho medo de me dissolver no nada quando morrer. Nada melhor do que ir a um restaurante japonês nos dias da angústia. A meio da refeição há sempre um papelinho com uns pequenos escritos que nos procura dar consolo. "É uma sensação agradável não ter na vida actual nenhuma ideia do que vai ser o próximo renascimento e depois de se ter renascido já não saber nada da vida passada". O problema é que nunca devia ter tirado outro papel. Experimentei o vaivém de sensações da alma humana. "Não tenho nenhum bom conselho para te animar!".

24.7.04

O futuro

PROBLEMA 120
Tenho por princípio imaginar o que as crianças serão no futuro. Pode-se compreender melhor as coisas assim. O problema é que tenho também por princípio imaginar quem me terá imaginado em criança aquilo que seria no futuro, havendo a séria probabilidade de ter sido imaginado por mais de uma pessoa. O que representa que já fui mais do que um.

23.7.04

O touro

PROBLEMA 119
O Hotel está apinhado de gente. Novos, velhos, tudo à espera do toureiro que há-de descer de elevador panorâmico. El Matador esteve no quarto a vestir-se naquele que é um dos momentos solenes do ritual dos grandes matadores. Ele aí vem. A agitação é grande. Um cordão humano abençoa a caminhada do toureiro até à porta de saída do hotel. O espectáculo tem de continuar. Na arena. Uma criança pergunta à mãe: "Então, e o touro quando é que desce?"

22.7.04

As formigas

PROBLEMA 118
Reparei hoje que a minha caligrafia cada vez mais se assemelha a formigas. Construo carreiros de letras (as letras do abecedário seguem umas atrás das outras) por onde as palavras caminham em busca do alimento, umas com sucesso, outras perdem-se. Hoje é daqueles dias em que devo ter pisado um montão delas. Só vejo a letra A.

21.7.04

Silêncio

PROBLEMA 117
Porque é que as pessoas precisam sempre que lhes expliquemos tudo?

20.7.04

A pulga

PROBLEMA 116
Uma pulga. Tenho uma pulga nas costas. Não consigo lá chegar. Coça-me as costas. Uma pulga? Tão cedo? Antes que se juntem e de repente tenha um montão delas, coça-me já as costas.

19.7.04

Deus

PROBLEMA 115
Preciso que me façam uma chave de casa. Perdi a minha. Mantenho o hábito de perder coisas. Os chapéus de chuva, no Inverno; os cachecóis, no Outono; o dinheiro, na Primavera; as chaves, no Verão. "Vai demorar uma semana". "Uma semana? Não pode ser!". Lembrei-me de Samuel Beckett. "Em seis dias, Deus fez o Mundo, e você não me consegue fazer uma chave num só dia?"

18.7.04

O tempo

PROBLEMA 114
Que horas são? As de sempre. Porque fazes sempre essa pergunta? Toda a vida as mesmas perguntas, as mesmas respostas. E, no entanto, vamos respirando, mudando. O cabelo cai-nos, os dentes também, a pele transforma-se, a frescura perde-se, os ideais também. Tenho um problema: quando não consigo dormir ponho-me à conversa com a gata na sala até ao amanhecer. As histórias que ela tem para me contar...

17.7.04

A família

PROBLEMA 113
Setenta e nove problemas depois, continuo a ter o mesmo problema. Não encontro o vinho "Casal das Freiras" para oferendar à minha querida irmã. Pior: voltei a falhar naquilo que combinei com ela, um almoço em Julho, ultrapassada a questão dos fluxogramas. Mas pior ainda: o Bruno fez anos e completou um ano do blog "desesperada esperança" e eu nem uma palavra. E ao Paulo nem lhe agradeci por ter colocado um link para o meu blog. Pior ainda: há quanto tempo não dou uma palavra à Inês, à Joaninha, ao Nico. E quando vou à Costa receber um ar puro de alento da Graça? E trocar um uisque e uma conversa com o Abel Luís? E ainda há o bacalhau que a mãe tem no frigorífico, à minha espera.

16.7.04

Vocação

PROBLEMA 112
A minha vocação é ser um problema

15.7.04

Consciência

PROBLEMA 111
Pedes-me o código da minha consciência. O problema é que o perdi. Tinha-o escrito num papel que o guardei num bolso das calças. Só hoje dei conta que tenho os bolsos rotos.



14.7.04

As borboletas

PROBLEMA 110
Um homem com binóculos sentado ao pé da linha do comboio é uma coisa estranha. Que estará ele a ver? "Procuro um sorriso", diz-me. Conta-me, de seguida, que faz colecção de borboletas e mostra-me um caderno, com orgulho. Estão lá milhares de insectos, que parecem saídos de uma paleta divina. "Um sorriso é bem mais difícil de apanhar do que uma borboleta".

13.7.04

Bolachas

PROBLEMA 109
A primeira noção clara que tive do desinteresse por bolachas foi quando descobri o gosto pela cerveja, primeiro, o vinho depois. Mas de vez em quando ainda me apetece comer bolachas, naqueles momentos que não sei explicar. Ao entardecer, já reparei, aumenta o nível de confiança nas minhas capacidades. O problema das bolachas é que, no supermercado onde costumo ir, adoro fazer a viagem até às bebidas: passo pelo peixe, camarões e afins, a carne, os enchidos, os molhos, os queijos...

12.7.04

jardim zoológico

PROBLEMA 108
Rebanhos, vacas, porcos,macacos, girafas, chimpanzés, avestruzes.Fui ao jardim zoológico? Não. O problema é esse. Estive na Baixa e ganhei um medo terrível de olhar para as pessoas. Faziam-me lembrar qualquer coisa...

11.7.04

Olhar

PROBLEMA 107
Quantas vezes nos esquecemos de olhar para as coisas? Há quanto tempo não olho para as roupas enxugadas nas janelas?

10.7.04

Calor

PROBLEMA 106
Dos meus pés vem um tal cheiro a queijo que mais convida a beber um vinho que a galgar os passeios de uma Lisboa antiga.

9.7.04

Obras

PROBLEMA 105
Uma desordem furiosa de mil coisas permanece no sótão da memória. Estou em obras. Ao mesmo tempo, reparo que estão a colocar uns andaimes no prédio. Coincidência ou vem aí um problema?

8.7.04

O grilo

PROBLEMA 104
Um grilo pode tornar-se numa coisa estúpida. Há três dias que tenho dificuldades em dormir.

7.7.04

Cromosoma

PROBLEMA 103
Um susto hoje quando de manhã ía para o emprego e encontrei X que se parece com Y. Comecei a falar com X como se estivesse a conversar com Y. E o pior é que X assumiu a personalidade de Y. O problema agora vai ser quando encontrar X. “Não te preocupes, a partir de certa altura na vida pensamos todos na mesma coisa, mas nem todos da mesma maneira”.



6.7.04

sardinhas

PROBLEMA 102
Estes jovens de hoje, que não têm o fascínio de Kafka, são demasiados parecidos com a velhice. Estes jovens parecem que vivem numa agência de modelos, estão para a política como as sardinhas para a publicidade.

5.7.04

Férias

PROBLEMA 101
“A reunião”, “a estratégia”, “o anexo”, “o fluxo de vendas”, “a sistematização”. Faltam ainda 14 dias para ir de férias...

4.7.04

Adeus

PROBLEMA 100
Eu devia ter pressentido que algo de bom não pairava no ar. Só hoje à noite é que reparei num papel colocado na porta do prédio do lado. A forte ventania de sexta-feira (?)fez com que uma mesa de jardim voasse de uma das varandas e fosse parar à rua. Resultado: um carro ficou danificado. A mão invisível que escreve o papel reclama justiça. Quer apurar responsabilidades. Ou muito me engano ou a seguir vem aí uma trovoada e começam a chover sapos.

P.S. Portugal perdeu e estou muito triste. O meu anjo da guarda fica feio nas fotos a chorar

3.7.04

Compensar

PROBLEMA 99
Uma ida à farmácia para comprar uma caixa (pequena…) de Kompensan. Por breves instantes eu e o meu anjo da guarda trocámos de sorriso. No limite, evitou-se a gargalhada. Desconfio que ele também me viu nos festejos da vitória de Portugal sobre a Holanda. O problema é que o Europeu termina amanhã. O Europeu, a farmácia não.

2.7.04

Eu e o outro

PROBLEMA 98
Hoje voltei ao que sou, ou pelo menos ao que imagino que sou. O problema é que não estava a desgostar de ter sido outro, ou pelo menos aquilo que eu penso ser outro.

1.7.04

Amizade

PROBLEMA 97
Estou exausto e sonâmbulo. Rouco e roto. Foi a vitória de Portugal? Não.Andei pela cidade a noite toda à procura de amizade e não a encontrei.