31.8.04

As escadas

PROBLEMA 159
Como descer nesta vida agitada? Voltar atrás é um constrangimento. Subi ontem as escadas e não tenho maneira de descer. Impossível! É perder tempo. Ainda consigo atender o telemóvel. “Enquanto não cessares de subir, os caminhos não acabarão”. Pois, parece que sim. Mesmo que no fim haja uma catástrofe qualquer à minha espera.

30.8.04

O mundo num frigorífico

PROBLEMA 158
Leio que Londres vai perder os seus emblemáticos autocarros vermelhos, os Routemasters. Mas também fico a saber que se pode comprar um Routemasters em tamanho real por 3 mil euros. Problemas, só problemas: 1) o mundo tal como o conheço está a desaparecer, agora é vez dos autocarros pelos quais tenho um fascínio especial, não sei porquê, deixarem de circular nas ruas de Londres a partir de 2005; 2) a possibilidade de adquirir um original é aliciante, mas resvala em dois problemas que se interrelacionam; 2.1) não tenho dinheiro para comprar um autocarro; 2.2) Pior ainda: não tenho carta de condução. Que fazer então? O problema principal é que nunca estive em Londres, nunca andei num Routemasters, e pelos vistos nunca vou andar. Mas o íman que está colocado no frigorífico lá de casa é o meu preferido...

29.8.04

Os meus jardins

PROBLEMA 157
Uma reportagem sobre jardins e pracetas para piquenicar a meio do trabalho ESQUECE-SE do Jardim da Estrela. E o Jardim da Parada merece apenas uma referência, em nota de rodapé, como outro dos lugares onde sabe bem improvisar refeições ligeiras. Ora bolas! Então e as vezes que eu ía comer umas sandes de torresmos para o Jardim da Estrela com a menina dos olhos bonitos? E no Jardim da Parada, os gelados que trocámos? Estes jornais é uma pasmaceira...Que sabem eles do meu mundo? Ainda bem... O problema é que tenho de lidar com jornais todos os dias.

28.8.04

Como treinar o seu ser humano

PROBLEMA 156
O treino de um ser humano, quer se trate de lhe ensinar a dar a mão ou de o transformar num ser vigilante, requer essencialmente duas coisas: tempo e paciência. Presumindo que a maioria das pessoas, apesar de tudo, terão essas duas qualidades, resta-me estabelecer passo a passo os programas de treino que o dono de um ser humano pode aplicar, tendo sempre em mente não causar aborrecimento.

P.S. A seguir com atenção os problemas de como treinar um ser humano

27.8.04

O vinho e a mulher

PROBLEMA 155
Belíssimo tinto, muito perfumado, complexo. Tem beleza exótica e elegante. Encorpado, refinado, especiarias, café, cacau, balsâmico, baunilha, na dose certa, temperam mas não se sobrepõem ao delicioso frutado lembrando morango e figo muito maduros. Estamos a falar de vinho ou de mulher? Ainda hoje não sei.

26.8.04

Os lobos e o rebanho

PROBLEMA 154
Os pastores estão revoltados com a dizimação do rebanho e a protecção que os lobos gozam por parte da Lei.

25.8.04

1+1=1 (continuação...)

PROBLEMA 153
"Não posso ir ter contigo. Surgiu um contratempo. O patrão quer horas extraordinárias. Tonto. És tonto."


24.8.04

1+1=1

PROBLEMA 152
"Sim? Já te tinha dito isso. Andas a passear? Não vais trabalhar sábado? Estás na hora do almoço? Já mataste as saudades do Cailão? A Caila e a Cailinha estão bem…A sério? Vês os horários de um lado e do outro. É directo. Vê o que compensa mais. Exactamente. Pois. Vais perguntar. Até logo. Um beijinho. Não? Mas porquê? Sim, tens razão. É, não é? Mas se ficares aí muito tempo ainda vou passar o fim de semana contigo. "

P.S. Excerto de uma conversa ao telemóvel

23.8.04

Farmácia

PROBLEMA 151
Há já algum tempo que não vou à farmácia. Que será feito do meu anjo da guarda? Recebo uma mensagem: “Que é feito de ti?”. Pois, o problema talvez seja esse… Ou quando a ausência de problemas é um problema. Alguém me explica isto?

22.8.04

A preguiça

PROBLEMA 150
Partilhar uma casa com uma gata dá nisto: a preguiça está a apoderar-se de mim. A preguiça...

21.8.04

Bolsos rotos

PROBLEMA 149
Encontrei um pequeno papel no chão com uma mensagem escrita. Diz assim: "Um prato de ostras. Uma garrafa de champanhe. Uma casa ao pé do mar. Música. Livros. Escrever. Dormir. Estarei a pedir muito?" Não foi a primeira vez que isto me aconteceu. Já encontrei dinheiro (o mais usual), um cartão multibanco esquecido na caixa, mensagens de amor, números de telefone, contas por pagar, anúncios de emprego, de imobiliário. Volta e meia surgem estes episódios na minha vida de explorador das ruas de Lisboa. Não procuro nada, vou encontrando. Por acaso. Desconfio que um qualquer bolso roto foi a causa deste papel perdido que agora guardo na carteira. O que não me surpreende. A quantidade de bolsos rotos que proliferam em Lisboa está a por a nú a alma dos portugueses.

20.8.04

Garganta seca

PROBLEMA 148
-Talvez o maior problema seja quando estou com a garganta seca... Dê-me três copos de vinho.
- Três?! Oh homem, não está a exagerar?
- Três copos de vinho, se faz favor...
- Ok, não se zangue. Afinal, não foi três a conta que Deus fez?
- Deus é bom.
- O vinho também.

P.S "Tenho a garganta seca/ ai dá-me um copo/que não é por beber/que um homem peca" (Tiago Guillul)

19.8.04

Coragem

PROBLEMA 147
Tira-me deste filme. Dos minutos que faltam sempre para tudo. Devolve-me a preguiça. "Recomeça, se puderes. Sem angústia e sem pressa..." (Miguel Torga).

18.8.04

Cansaço

PROBLEMA 146
Enquanto esperam pelo comboio, Mesebel faz tricot, Jamenel fuma e Pauris lê um livro. Estão sózinhos na estação e não se falam. O comboio chega e cada um entra em carruagens diferentes. Desconhecem que são os únicos passageiros. Ao longo do trajecto também não se apercebem que ninguém entra nas estações de paragem.
Quando o comboio chega ao destino, são várias as pessoas que correm, umas a fugir de sabe-se lá o quê, outras ao encontro de alguma coisa, outras ainda sem caminho definido. Mas nenhuma delas é Mesebel, Jamenel ou Pauris. O que aconteceu, afinal?
Solução: o autor destas linhas, para passar o tempo de uma viagem que demorou 28 minutos, acabou por adormecer e teve um sonho...

17.8.04

As hemorróidas e o fim do mundo

PROBLEMA 144
Uma dilatação varicosa das veias ano-rectais, vulgo hemorróidas, está a causar-me um problema. Melhor: dois problemas. Físico, porque me dói, mental, porque assusta-me a ideia de ter de ir à farmácia, ter de passar pela vergonha de perguntar ao meu anjo da guarda se tem um remédio adequado. Já traçei as mais variadas hipóteses de fugir ao problema. Começar por pedir uma caixa de aspirinas, depois uma pasta de dentes, fio dental para os dentes, etc, e lá para o fim, assim a despachar, ajudado por um tímido "ah!", um remédio para as hemorróidas. Ou então perguntar, fazendo um beicinho, se tem alguma coisa para um bebé com hemorróidas. Ou ainda então, dar um ar de intelectual e com voz afirmativa perguntar se tem o remédio Y, indicado para o caso, assim sem mais nem menos. Qual quê. Vou ver é se isto passa. Que maneira mais esquisita de rever o meu anjo da guarda. Por causa das minhas hemorróidas!

PROBLEMA 145
O meu sobrinho do Desesperada Esperança está com um problema que temo venha a se tornar um caso muito sério ao ponto de se propagar à escala planetária. O blog dele apagou-se. Desapareceu tudo o que ele tinha escrito. O apagão já dura há dois dias e não há sinais de esperança. Desesperado anda o Bruno. E eu começo também a ficar. E se acontece o mesmo comigo? Temo muito seriamente que o fim deste mundo, tal como o conhecemos, comece assim.

16.8.04

O trabalho

PROBLEMA 143
Interrompido o ciclo das férias, reinicio outro, o do regresso ao trabalho. E com isso carrego um problema. A impossibilidade física de realizar um desejo de seguir um conselho sábio:“Se sentir vontade de trabalhar, deite-se no chão que isso passa”. Porque o chão é duro, está sujo, e as minhas costas são frágeis e a alergia ao pó uma ameaça constante.

15.8.04

O metro

PROBLEMA 142
As descidas às profundezas da cidade não são muito do meu agrado. Nunca me dei bem em escolher linhas e destinos em qualquer estação de metro por esse mundo fora. Talvez tenha a ver com o problema de ainda hoje não me recordar muito bem se nos meus tempos de infância me perdi no metro ou tudo não passou de um pesadelo. Tenho muitas vezes este problema - ou melhor, tinha ­- de confundir os sonhos com a vida real.
Como deixei de andar de metro, e de sonhar, o problema agora é que descobri que há mais profundezas na cidade que eu desconhecia, muitas delas à superfície. Basta olhar todos os dias de manhã para o rosto das pessoas.

14.8.04

Corrida

PROBLEMA 141
Quando me lembro, sinto um calor no peito. Sozinho, na sala, fiquei à espera da corrida de Carlos Lopes. Los Angeles. 1984. Madrugada dentro. Naquele meu recanto partilhei a espera com a leitura de um livro que mudou a minha maneira de ser. "A Metamorfose", de Kafka (continuo a acreditar que mudamos continuamente de forma a cada dia que passa, muitas vezes sem nos apercebermos disso). Na semana anterior, o então meu anjo da guarda, dilacerou-me com uma frase que nunca mais esqueci: "Há três escritores essenciais: Kafka, Joyce e Proust. Vai por aí". Naquela noite, decidi avançar com Kafka. E recordo que li o livro de uma vez só, como se deviam ler todos os livros. Depois, pois: ainda hoje sinto as minha lágrimas a cairem quando Carlos Lopes cortou a meta, ainda hoje sinto a necessidade de voltar, tornar a voltar, a Kafka. Só agora, tantas Olímpiadas volvidas me interrogo porque não segui os outros caminhos que me indicaste. Não encontro resposta.

13.8.04

Reflexão (continuação)

PROBLEMA 140
... Procuro fazer o pino, mas não consigo. Isto de estar numa posição vertical já é complicado, quanto mais com a cabeça para baixo.

12.8.04

Desencontro

PROBLEMA 139
Não sei se foi por estar a tomar banho e deparar com um problema na mangueira (está furada e deita água por todos os lados) mas lembrei-me de um episódio de infância (nove, dez anos..). De férias, no Furadouro, gozava a minha liberdade fugindo de bicicleta numa volta a portugal imaginária. Tudo existia na minha mente. A partida. A chegada. Eu claro, era sempre o vencedor. Não necessariamente em todas as etapas, mas feitas as contas, num caderno secretamente guardado, lá estava eu, o vencedor absoluto. Mas um dia, uma curva mal feita fez-me embater contra um carro. Não sofri danos físicos, mas começou aí a minha primeira desilusão ou desencanto entre o meu mundo e o mundo.

11.8.04

Reflexão

PROBLEMA 138
Procuro...

10.8.04

Comboio

PROBLEMA 137
Isto de andar de comboio tem o seu quê de filosófico. O problema são os problemas que isso cria a um espírito como o meu. Paragem e Destino são duas palavras que me habituei a reconhecer quando sentado olho para o visor que vai infomando os passageiros do percurso. Quando, como hoje, fiquei mais de uma hora parado numa estação, dei por mim a perguntar-me se queria realmente chegar ao Destino. Quando cheguei a casa fui a correr ao dicionário ver o significado da palavra Destino: "é sempre um fim para que tende uma acção ou estado; fim; acontecimento fatal determinado pela Providência ou pelas leis naturais". Já Paragem significa: "acto de parar, lugar onde se pára, pausa". Vou passar a ter mais cuidado com os comboios que escolho para viajar, ter em atenção que é melhor sair numa Paragem do que no Destino. Não vai ser nada fácil...

9.8.04

As plantas

PROBLEMA 136
Leio no jornal: “Oito mortos e 15 feridos graves é o balanço de mais de uma dezena de acidentes rodoviários ocorridos no passado domingo, um pouco por todo o país. A chuva e o mau tempo são as causas apontadas para esta sinistralidade”. Só agora reparo que as plantas da sala estão a ficar murchas. Devo ter posto muita água a noite passada.

8.8.04

Mesebel e Jamenel

PROBLEMA 135
Mesebel usa as palavras que Jamenel lhe ensinou. Só que com o passar do tempo elas já não querem dizer nada. Então, Mesebel pediu a Jamenel para que ele lhe ensine outras. “Ou, então, deixa que me cale”

7.8.04

O bronze

PROBLEMA 134
O bronzeador tornou-se um apetrecho essencial para as férias. De tal maneira que já não se pergunta a ninguém visivelmente com a pele escurecida a que praia foi mas sim que bronzeador usa. O cheiro a suor misturado com o do repelente creme perturba-me…

6.8.04

Mesebel

PROBLEMA 133
Mesebel anda a fazer fisioterapia. Fisioterapia da alma. Não está a ser nada fácil. Parece que vai demorar mais tempo do previsto.

5.8.04

Distância

PROBLEMA 132
Só quando nos aproximamos das pessoas é que sabemos se elas nos podem causar impacto. O problema é aproximarmo-nos. Vivemos todos à distância uns dos outros.

4.8.04

Xadrez

PROBLEMA 131
Sinto-me hoje uma peça de um jogo de xadrez. Manipulado. Fazem-me deslocar nas linhas e colunas para alcançarem um objectivo. Não sou aquilo que sou, mas o que os outros pensam de mim.

3.8.04

Partilha

PROBLEMA 130
O que é bonito no querer é o que isso significa quanto nos sentimos em falta. O problema é quanto mais quero mais me sinto em falta. Afinal, como toda a gente. E isso é um problema ainda maior.

2.8.04

Efémero

PROBLEMA 129
Só hoje dei conta de que não tenho fotografias da família toda. Em conjunto. Impossível? Talvez. São sempre A+B, ou A+B+C, ou C+D, mas nunca um número redondo e finito. Como será quando só restar a recordação? Tenho medo.

1.8.04

Dor

PROBLEMA 128
Dói-me o estômago. "Come qualquer coisa que isso passa". Dói-me a cabeça. "Não tens nada lá dentro. Escreve."