31.10.04

Os pombos e a diarreia

PROBLEMA 278. Não deixes de dar de comer aos pombos, sobretudo aos pombos. Dá-lhes milho, miolo de pão, alpista, fígado, rim, o que quiseres, mas não deixes de alimentar os pombos. Até que se vejam os papos. Até que rebentem de excesso. A janela da cozinha não a podes fechar, está bem, mas não quero mais passarada cá em casa. Ontem, não eram só pombos. Eles eram corujas, melros, pintassilgos, periquitos. Só ouço um concerto pipilado apocalíptico nos meus miolos. E até a gata está passada com tanto desconcerto. Não te esqueças, os pombos, sobretudo os pombos. Já não suporto os desarranjos intestinais, a secreção da bílis e das enzimas nos intestinos dos pombos.

PROBLEMA 279. Uma digestão perturbada é um sério problema. E não é só nos pombos, como todos sabemos. Dá lugar a uma série de microorganismos prejudiciais e parasitas intestinais. Nomeadamente em situações de stress, maldito stress, poderão surgir indigestões que se manifestam através de mais ou menos graves diarreias. Estas diarreias são provocadas, entre outros, pelos seguintes germes prejudiciais e parasitas: Bactérias: salmonelas, E.coli, vários tipos de pasteurelas e de campylobacteria, estreptococos e corynebacteria; Vermes: ascárides e lombrigas; Fungos: aspergiloma, candida e actinomicetos; Coccidiose: eimeria ssp.
Estou assustado, em pânico. Será isto a guerra biológica?

30.10.04

Simples

PROBLEMA 276. De um diálogo no comboio, ou como o acto punitivo, a culpa, andam por aí:
- Dás cabo da paciência a um Santo! Pára! Penduro-te pelas orelhas!
- Quero lá saber…as orelhas não são minhas.
- Não são tuas?
- Não, são tuas e do pai. Vocês é que me fizeram…As cegonhas há muito tempo que desistiram de serem ministras da Propaganda…

PROBLEMA 277. As coisas até são simples. Demoramos é sempre muito tempo até chegarmos a elas.

29.10.04

Uma bola de bilhar e orégãos

PROBLEMA 274. As farmácias são máquinas de fazer dinheiro, mas também onde está o meu anjo da guarda que me ajuda quando pode na arte de fintar as dores. Não gosto de ir ao médico porque eles descobrem tudo. Análises, raios-x, radiografias, taques e zás. O veredicto. Uma porra. Não gosto de ir ao médico porque sinto-me uma bola de bilhar.

PROBLEMA 275. Quando o calor aperta, o que não é o caso agora, depois de chegar a casa após um dia de trabalho estafante costumo combater o cansaço com uma boa dose de caracóis, com muitos orégãos, planta labiada parecida com a hortelã e usada como tempero, e umas cervejolas. Reservo-me o direito de relaxar e de cuidar de mim próprio…caracóis com orégãos são relaxantes, revigorantes, grandes auxiliares nos cuidados do meu corpo e espírito. O que desconhecia é que os ditos orégãos são também óptimos para banhos. Dizem-me que são indicados para aliviar dores musculares e reumáticas. Não me estou a ver, não me estou a ver…

28.10.04

Os icebergues de um universo a rufar

PROBLEMA 271. A água em que ninguém fez xixi, a água dos icebergues, está a ser transformada em gelo, vodka, cerveja, champanhe. No Canadá e no Japão. Em Portugal… vou sobrevivendo.

PROBLEMA 272. Anúncio: Q4w3eq. Método: a minha gata colocou a pata nas teclas do computador… Interrogação: O que é Q4w3eq? Problema: a nova fórmula do Universo.

PROBLEMA 273. As palavras são gaivotas em terra. O coração, um tambor a rufar. Os olhos, estrelas cadentes. A gata anda inquieta. Não come a horas, remexe nos livros antigos, nos papéis com apontamentos da alma. A dor de Mesebel ou o grito de Hamlet desapareceram na boca da minha gata.

27.10.04

Office day

PROBLEMA 267. Uma discussão levou-me a pensar nos espermatozóides, esses seres microscópicos devotados ao propósito da selecção natural e que parece que possuem receptores olfactivos que lhes permitem seguir pistas químicas ao longo do caminho até ao óvulo: que vença o melhor.

PROBLEMA 268. As amizades no trabalho não passam de relações que o interesse ata e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho.

PROBLEMA 269. Arregimentar a banalidade vai sendo uma prática quotidiana. Vergar, adular são os verbos preferidos dos bajuladores.

PROBLEMA 270. Na casa de banho, tempo para um duplo momento de prazer (necessidade fisiológica + fuga momentânea) e outro de inquietação. Leio um excerto do Diário de Eugène Delacroix: “Os ignorantes e o homem comum não têm problemas. Para eles na Natureza tudo está como deve estar. Eles compreendem as coisas pela simples razão delas existirem. E, na realidade, não dão eles provas de mais razão do que todos os sonhadores, que chegam a duvidar do seu próprio pensamento?”
Tudo bem, mas não me vou deixar ficar depois da discussão...ai não vou não...

26.10.04

Mau tempo

PROBLEMA 265. As condições climatéricas vão piorar a partir do meio da tarde de hoje, com chuva e ventos fortes, situação que deverá manter-se até ao início da tarde de amanhã. A chuva forte deverá progredir do litoral para o interior e o vento "muito forte" poderá soprar até aos 65 quilómetros/hora no litoral, aos 80 quilómetros/hora nas terras altas, com rajadas que poderão chegar aos 120. Face a estas condições, poderão ocorrer inundações urbanas, queda de ramos de árvore, movimentação de estruturas mal fixas, como andaimes e toldos. Aconselha-se as pessoas a estarem atentas, fechar bem as janelas e retirar das varandas e peitorais todos os objectos soltos. Como medida de precaução deve-se desobstruir os sistemas de escoamento de águas pluviais dos quintais ou varandas e fazer a limpeza das sarjetas, algerozes e caleiras dos telhados das habitações. Conduza com precaução devido a possíveis congestionamentos no trânsito, reduzindo a velocidade. Tenha especial atenção aos lençóis de água que podem formar-se e não conduza ou estacione em zonas propícias a inundações urbanas.

PROBLEMA 266. A minha amiga alentejana diz que ainda vou acabar místico. Místico? Só se o surgimento de um novo planeta produzir mudanças electromagnéticas e gravitacionais na Terra de tal modo que produza primeiro o caos e depois um grande despertar. Místico?! Eu?!

25.10.04

Engano

PROBLEMA 262. Ou pára de chover ou ainda a minha gata descobre o segredo matemático do Universo. Faz tempo que continua a contar os pingos de chuva que caem no vidro da janela.

PROBLEMA 263. Jamenel beija o cigarro a pensar que beija Mesebel; beija o gargalo da garrafa de cerveja a pensar que beija Mesebel; finalmente, beija o espelho a pensar que beija Mesebel. De repente toca o telefone. “Felisberto?! Então, não vieste ontem?”. “Deve ser engano, minha senhora…”, “Ah pois, desculpe…”

PROBLEMA 264. Odeio as segundas-feiras. Quando o lixo ainda está nos contentores, logo pela manhã.

24.10.04

Coragem

PROBLEMA 261. A minha gata está há duas horas concentrada a contar os pingos de chuva que caem no vidro da janela. Apetecia-me perguntar-lhe em quantos já vai…Não tenho coragem.

23.10.04

Para sempre

PROBLEMA 260. Comovi-me no aniversário dos oitenta anos da minha mãe. Um abraço lacrimoso partilhado entre irmãos, a Alice e o António, é uma das imagens que vou guardar para sempre enquanto a vida fizer o favor de me aturar. Da minha mãe e das minhas irmãs só recebi festinhas, miminhos. Nunca aquele abraço. Mas não me queixo. Porque sei que ele está reservado. Em síntese, o problema que aqui quero levantar é o seguinte: passamos a vida a proclamar vitória por termos sobrevivido dia a dia, sem perceber que estamos a perder o melhor dela. Não temos amado, acima de todas as coisas.

22.10.04

Sem nada

PROBLEMA 257. Sem identificação, a não ser o sexo, a zona geográfica do trabalho ou a faixa etária a que pertence, por exemplo, e mesmo assim corro o risco de estar enganado, nos últimos dias, sem nada que o fizesse prever, tenho passado a minha viagem casa-emprego a imaginar como será fisicamente uma certa pessoa. A coisa está a tal ponto que vou na rua e dou comigo a olhar para os outros de uma forma mais obcessiva que anteriormente. Será assim? Ou assim? Ou ainda assim? Não sei como me vou livrar disto…

PROBLEMA 258. Apoderou-se de mim esta tarde um terror em ir para o emprego. Tentei de tudo para retardar a entrada no edifício. Fui ao café, à livraria, ao Multibanco, ao café outra vez, comprei o jornal, entrei numa loja de antiguidades, numa sapataria…até que o telemóvel tocou. “Estás atrasado para a reunião!”

PROBLEMA 259. Os caminhos longos não são longos. A angústia, o trágico de os ter de percorrer é que fazem deles longos.

21.10.04

Ai ai que saudades de enguias

PROBLEMA 256. Dois investigadores portugueses descobriram uma nova espécie de peixe. Deram-lhe o nome científico de "Pachycara saldanhai". Parece uma enguia, mas não é. Será bom para comer?

Quando eu acordar...

PROBLEMA 255. Circulo no Terreiro do Paço, às 8 da manhã, como se estivesse entre ene produtos de um hipermercado qualquer. Tudo se cruza numa lógica de acumulação e de espectáculo. Luzes, máscaras, cores combinam entre si para a consumação do teatro do absurdo. Estou condenado a consumir? Informação, relações, objectos? Na verdade estou cheio de sono e disso se aproveitam. Quando eu acordar...quando?

20.10.04

O mundo está a perder o ritmo

PROBLEMA 252.
- A menina dança?
- …
- Alguém dança?
- …

PROBLEMA 253. Pauris esqueceu-se dos nomes das estações. Vai passar o resto da vida dele num comboio.

PROBLEMA 254. Li uma inscrição à porta de um restaurante antigo. “Venite ad me omnes que stomacho laboratis et ego vos restaurabo” (Venham a mim todos vós que sofreis do estômago e eu vos restaurarei”. Não resisti e entrei. Até porque estou a recuperar o bem-estar físico e bem comido a minha alma de nada quer saber. Lautos banquetes se desenrolaram diante do meu olhar. Fui recebido com fidalguia, escutava-se boa música, os manjares opíparos. Aproveitando a hospedagem apetecia-me deixar ficar por vários dias e até meses...


19.10.04

Feito num oito

PROBLEMA 249. Outubro vem do latim octu(m) [oito] e imber [chuva] = October. Era no calendário romano anterior à reforma juliana de 45 a.C. o oitavo mês do ano. Não sei se isto vem a propósito mas estou feito num oito: cheguei a casa todo molhado.

PROBLEMA 250. Cada vez que vou à retrete reformar os meus intestinos espanto-me com a literatura que levo para a casa de banho. Panfletos publicitários e diários. Haverá alguma explicação?

PROBLEMA 251. Leio, já no sofá da sala, uma notícia atrasada alarmante: cientistas recomendam fim da pesca do bacalhau em 2005. A concretizar-se, espera-me um ano muito complicado… Tenho de avisar os meus portos de abrigo. É preciso reforçar o congelador. Que será da minha vida sem bacalhau?



18.10.04

Um dia chuvoso

PROBLEMA 245. Já gostei mais da chuva. Agora é uma chatice e dá-me para a melancolia. Vou na rua e há sempre alguém a tentar vender-me um chapéu-de-chuva. Não uso, não compro. Não vale a pena. Já desisti de fazer a conta aos que perdi desde que corrompi a minha inocência das coisas… Ganho umas constipações valentes, mas até não me posso queixar muito este ano. O Sol tem dado de goleada ao tempo chuvoso. O problema é que a tendência parece estar a inverter. Na viagem a pé da estação de comboio para o emprego – elucido desde já que não conduzo. Aliás, a vida é que me conduz - sou sujeito a um teste de resistência psicológica. Pelo menos três vendedores tentam-me convencer. “Proteja-se, homem! Está a chover!”. Há ainda outro problema. Não sei se é da maneira como hoje em dia vejo a vida que me rodeia mas quando chove parece que tudo fica mais pequeno. As pessoas, as ruas, os carros, os cães e os gatos, embora estes se vejam cada vez menos. Dizem-me que desapareceram à proporção directa do aumento dos restaurantes chineses em Lisboa. Outro problema relacionado com a chuva tem a ver com a minha actividade sexual. Diminui.

PROBLEMA 246. Cortei-me com violência ao fazer a barba. Porra! Já pus um penso adesivo, mas o sangue continua a escorrer. Isto de lutar contra a nossa parte animalesca tem muito que se lhe diga – tenho para mim que a barba aumenta a parte animalesca do rosto conferindo-lhe um aspecto brutal evidente. Ora, eu sou tudo menos isso. Sou tímido, envergonhado, poucas vezes estou à vontade. No fundo, acanho-me como faz um cão ao ser repreendido: encolhe-se.

PROBLEMA 247. Uma vespa atacou-me e mordeu-me no pescoço. Estou abespinhado. Já não bastava o acidente com a máquina de barbear, agora fui vítima de um insecto.

PROBLEMA 248. O dia está a revelar-se despropositado. É da chuva, de certeza. Deixa-me assim desagradável, absurdo, surdo, mudo.

17.10.04

O penico

PROBLEMA 244
A minha empregada deixou-me um enigma e uma missão espinhosa para resolver este fim-de-semana. Na porta de uma das casas de banho, um papel espetado na maçaneta dizia o seguinte: "snr. António. Se faz favor, não utilize hoje as casas de banho. Levaram água forte. Só amanhã. Obrigado. Cremilde." E ao pé da porta, um penico. Sim, um penico branco de plástico. Confesso a minha ignorância. "Água forte?!". E confesso a minha revolta. Um penico?! Oh Cremilde, está a gozar comigo?! O que sei é que fiquei de tal forma transtornado que ando a fazer um esforço incomensurável para não verter águas e afins...resumindo, ando à rasca, mas a mim ninguém me humilha!

16.10.04

Ostras afrodisíacas

PROBLEMA 243
Molho:
1 colher de sopa de molho inglês
1/2 colher de chá de tabasco
1 colher de sopa de pasta de raiz forte
1/2 xícara de suco de tomate
2 colheres de sopa de suco de limão
1 colher de chá de cebola bem picada
1 colher de sopa de salsão picado
sal e pimenta

12 ostras frescas
gelo triturado
gomos de limão

Modo de preparo:
Compre somente ostras frescas e vivas de um fornecedor de confiança. Para abri-las coloque uma a uma sobre um pano limpo, colocando o lado mais arredondado da ostra para baixo, introduza uma faca pequena no meio da concha para separar as metades, torça a faca para fazer pressão na concha e assim que sentir que a pressão aliviou passe a faca em torno da concha para cortar o músculo da ostra. Retire a parte superior da concha preservando o líquido da ostra na concha inferior. Arrume as ostras na meia concha sobre uma camada de gelo triturado. Prepare o molho batendo bem os ingredientes num liquidificador, coza numa peneira fina e coloque numa molheira e sirva à parte acompanhando as ostras.

Explicação:
Quando não tenho um problema, e nada indica que venha a ter, é um problema. Dá-me para problemas, devaneios, sonhos de gula... Que querem?! Sou assim...

15.10.04

Problemas "à la carte"

PROBLEMA 242
1) O som do ressonar...

2) Despir toda a roupa e ficar disponível da mesma forma que os ingredientes de uma pizza.

3) - Tem picha [camarão pequeno] ?
- O que há é chué [reles]...

4) Compulsão por sexo, comida e compras.

5) Deixar a porta do congelador aberta.

14.10.04

Desabafos na cidade

PROBLEMA 241
A) Lembras-te quando me encheste de tremoços e amendoins e fui parar ao hospital para me fazerem uma lavagem ao estômago? Lembras-te quando engoli dois tostões e a natureza – perfeita – os fez sair nas minhas fezes? Lembras-te quando me dizias para comer com a boca fechada? Lembrei-me hoje...
B) Mesebel está preocupada com Pauris. Recebeu dele a seguinte missiva: “Decidi evangelizar os meus problemas, partilhá-los. Até um certo ponto. No resto, vou continuar a regar as plantas. Na certeza desta minha insegurança nas capacidades de me interessar por alguém”. Fala com Pauris.
C) Os meus problemas são fragmentos da minha vida. Verdadeira ou falsa, que importa? Não se desenrolam como uma história cronológica. Estar na vida é outra coisa que a mera cronologia dos acontecimentos. É poder estar num sítio e recordar outro lugar, é imaginar uma situação diferente. É construir histórias sobrepostas mais do que contar histórias lineares e aborrecidas. São tantos os meus problemas. Deixa-me desabafar...
D) Ouço uma notícia de última hora: as mulheres parecem que trocaram maridos e namorados por mulheres. Desistiram deles na cama e na vida. Há já um inquérito a decorrer a nível planetário: de quem é a culpa? O que é que achas disto?
E) Adormeceste?! Estás a dormir?!!

13.10.04

A arte de servir e conspirar

PROBLEMA 240
Alguns portugueses são verdadeiros mestres tanto na arte de servir como na arte da conspiração. E quando misturam as duas o que resulta não tem muita piada. Fui jantar a um restaurante, e como todas as vezes que o faço à noite fico sempre para o fim. Sou dos últimos, senão o último a ir-me embora. Pela companhia e pela conversa, sobretudo, mas também porque não gosto de comer e beber à pressa. Alguns não apreciam os meus hábitos, leio-os nos lábios. Quando estão longe da minha mesa cochicham entre eles, olham-me de soslaio. “Aqueles nunca mais se despacham”, pensam. Quando se abeiram da mesa, no entanto, desdobram-se em simpatia, educação e eficiência... Poderia ficar satisfeito só por isto. Mas fico sempre com a estranha sensação de estar a ser bombardeado por forças estrangeiras.


12.10.04

Os anjos da guarda

PROBLEMA 237
Acabei por gastar o frasco inteiro de Betadine na viagem de regresso. Motivado pela franca disponibilidade de uma das hospedeiras de bordo para resolver o meu problema labial, a verdade é que estou bastante melhor. Pelo menos com outro aspecto. O problema agora é que fiquei sem um pretexto convincente para ir falar com o meu anjo da guarda terreno. Isto porque o meu outro anjo da guarda, o aéreo, ainda por cima se prontificou a aliviar-me das dores nas costas e no dedo mínimo provocadas pela queda de bicicleta em Tóquio. Um gel, Ozonol de seu nome, um alívio para as dores musculares ligeiras a moderadas, é remédio santo. Depois de três aplicações o milagre deu-se. O problema agora é de consciência: que fazer com dois anjos da guarda?

PROBLEMA 238
À chegada a casa, surpreendi algumas lágrimas na pele da gata. Seriam dela? Seriam minhas?

PROBLEMA 239
O aborrecido do dia foi mesmo ter de ir trabalhar. Depois de uma viagem cansativa assistir às conspirações maquiavélicas de que cada um vê no outro aquele que lhe pode ocupar o lugar.

11.10.04

Tragédia e comédia

PROBLEMA 236
Se Schopenhaeur estivesse aqui comigo, em Tóquio, por certo seria o único a compreender o que me sucedeu esta manhã (madrugada em Lisboa). Para fazer passar o tempo antes de ir para o aeroporto resolvi alugar uma bicicleta e ir dar uma pequena volta ao jardim mais próximo do hotel. O traço mais significativo da minha actividade acabou por ser um acidente que me causou danos físicos e espirituais. Cai da bicicleta. Tenho as costas doridas e os joelhos inchados – a dor é intensa – e estou com a vergonha ao quadrado. Não, não vou ao médico. Tenho de ir apanhar o avião. Observando de um modo geral o que me ocorreu, percebo que se trata de uma tragédia mas examinado nos detalhes é bem capaz de ter o carácter de uma comédia. De qualquer forma, estou feito num oito.

P.S. Nem pensem ir ao aeroporto esperar-me. Estou num estado digno de lástima...

10.10.04

Quando o pénis e a vagina provocam o caos

PROBLEMA 235
Uma das coisas mais fascinantes em Tóquio são as estações de comboio. Parecem uma cidade. A de Shinjuku, por exemplo, foi usada como cenário do Blade Runner. A multiplicidade de objectos e os seus néons que passam pelos olhos causam-me, no entanto, vertigens. Nenhum deles me cativa o coração. Todos juntos perturbam os meus sentidos. Estes dias em Tóquio fizeram-me pensar na ideia da vida como sendo uma complexa estrutura burocrática, mergulhada num aparente caos humano.

- A vida é assim. Proceder a uma alteração ao desenvolvimento de um sistema orgânico da vida é fatal. Um programa codificado não pode ser corrigido uma vez estabelecido. Tu foste concebido o mais perfeitamente possível.
- Não para durar muito...
- A luz que brilha com o dobro da intensidade dura a metade do tempo. E tu brilhaste com muita intensidade...

Amanhã à noite já estarei em Lisboa. Espero. Levo comigo a borbulha no lábio. Terça-feira de manhã vou ter com o meu anjo da guarda. Afinal, devo muita coisa a ele. Tornou-me a vida mais sonhadora. Estou apenas um pouco temeroso sobre a receita que me dará para esta ferida desaparecer. Mas desconfio… Para adormecer faço um zapping na televisão e dou de caras com um dos programas mais badalados em Tóquio. Passa de madrugada e os convidados falam dos seus órgãos genitais. Há famosos a falarem do pénis e da vagina. O mundo, tal como eu o vejo, anda entretido!

9.10.04

Artista de cinema

PROBLEMA 234
Não sei se é porque está para breve o regresso a Lisboa, mas hoje começou a chover em Tóquio. Aproveitei a madrugada para ir ao mercado do peixe de Tsukiji. É uma visão fascinante da vida quotidiana. Para mais, sempre gostei do cheiro da chuva misturado com o do peixe fresco. Prevenido, fui de impermeável e galochas e não fosse um encontro imprevisto tudo teria corrido às mil maravilhas. Dois namorados, encostados à parede, falavam com as lágrimas nos olhos. Fiquei perturbado com o diálogo. Afinal, fazia-me lembrar algo.
- Notícias quero ter todas as horas, porque um minuto encerra muitos dias. Fazendo a conta assim, ficarei velha antes de te ver de novo.
- Adeus. Não deixarei passar um só momento sem te mandar contar o meu tormento.
- Oh! Pensas mesmo que ainda nos veremos?
- Não o duvides; todas estas dores nos servirão ainda unicamente para doces deixar nossos colóquios.
- Oh Deus! Vendo-te assim, tão longe, só parece que estás sem vida, dentro de um sepulcro. Ou vejo mal, ou estás, realmente, pálido.
- Podes crer-me, querida; de igual modo tu me pareces. A aflição sedenta nos bebe todo o sangue. Adeus! Adeus!
Foi então que percebi tudo: estavam a filmar uma cena do Romeu e Julieta, de Shakespeare. O problema é que o realizador veio ter comigo e perguntou-me se eu podia chorar outra vez para entrar na cena. Mas como é que eu vou fingir que estou a chorar? Problemas de um artista improvisado de cinema em Tóquio.

8.10.04

A vida em flor

PROBLEMA 233
Ainda não sabendo muito bem da veracidade dos acontecimentos de ontem - a recepção do Hotel garante-me que está uma Barbara hospedada aqui - lembrei-me hoje que a madrinha da minha sobrinha/afilhada/filha da irmã da irmã do irmão que está sozinho no Japão pediu-me uma flor dos famosos jardins de Tóquio. Disposto a esquecer a noite anterior, resolvi visitar então o Parque Ueno, o maior de Tóquio, onde decorria um festival de dança num cenário romântico de canaviais de bambu, pinheiros, cerejeiras, ameixoeiras, e flores de toda a espécie. Primeiro problema: até arranco uma flor, mas depois vai chegar murcha a Lisboa. Segundo problema: eles estão a olhar para mim com um ar desconfiado. Melindrado ando com a Barbara. "Gosto da verdade. Acredito que a humanidade precisa dela; mas precisa ainda mais da mentira que a lisonjeia, a consola, lhe dá esperanças infinitas. Sem a mentira, a humanidade pereceria de desespero e de tédio." Hoje quase ia caindo, só de pensar nisso. As portas do táxi aqui em Tóquio abrem-se automaticamente. Não sabia, e como estava encostado…foi por pouco, só vos digo.

7.10.04

Encontrei a Barbara

PROBLEMA 232
Ela está cá! Estive a tomar uns copos com a Barbara Gogan, no bar do Hotel. Contei-lhe o meu segredo mais bem guardado. Há três anos, quando mudámos de instalações lá no emprego, perdi os cd’s dos Passions, um dos quais com a minha música favorita: “I’m in love with a german film star”. Desde aí que ando à procura dos meus tesouros e não há maneira de os encontrar. Uma busca que já me levou quase aos quatro cantos do mundo, e agora a Tóquio. Mas eis que a demanda do Sant Graal poderia estar a chegar, finalmente, ao fim. No país do sol Nascente. Tinha a possibilidade de pedir a ela. À Barbara Gogan. Tudo perfeito, não fosse senti-la deprimida. Ficámos à conversa, enquanto íamos petiscando umas patas de caranguejo e ostras fritas com arroz e bebendo cerveja. Ao prazer da degustação juntou-se o estímulo de ouvir a voz de Gogan. Foi como sentir que acabei de escapar de uma zona de pressão atmosférica insuportável para um meio com muito oxigénio. De repente, percebi que Tóquio não é assim tão grande. O problema é que quando fui para o quarto ver o “Lost in Translation” acabei por adormecer. E só acordei 15! horas depois. O jet-lag atacou! Espero que a Barbara não esteja zangada comigo. Temo que tudo não tenha passado de um sonho…

6.10.04

Tóquio é uma máquina de flippers

PROBLEMA 231
A minha borbulha começa a deixar-me nervoso. Fui a Ginza, a zona mais chique de Tóquio, e um senhor obrigou-me a colocar uma máscara na cara antes de entrar num bar. “Esteticamente, a sua boca não respeita as normas da casa”. Como se não fosse o suficiente, tive de jogar flippers com uma senhora de 60 anos ao meu lado que fazia mais barulho a falar do que a própria máquina. E pensar que o dia já começara de forma estranha. Assoei-me e fui imediatamente repreendido; pisei os tapetes tatami numa loja de vestuário e apanhei um raspanete. Obrigaram-me a descalçar. Eu que cheiro mal dos pés. Ainda no hotel, o pequeno almoço foi servido no quarto por uma criada pequenina e atrevida. Arroz, peixe e sopa! Pela primeira vez abri a caixa de Kompensan. Almocei macarronete num quiosque na rua, aquilo que os japoneses chamam de comida rápida servida com molho quente. Ao fim da tarde, a visita a um banho público resultou numa situação embaraçosa. Primeiro levaram-me para uma sala onde, sozinho, tinha de me ensaboar todo e só depois entrar no banho comunal, já limpo. Obviamente dispensava esta segunda parte…Mas não quis ser mal educado. Há karaoke em todo o lado em Tóquio. Afinal não é só em Portugal que a vontade de ser ridículo é considerada diversão. Por aqui, também. A propósito chegam-me notícias de Portugal. A Quinta das Celebridades já começou, Santana Lopes ainda é primeiro-ministro, Carlos Carvalhas já não é líder do PCP, Peseiro e Dias da Cunha ainda não pediram a demissão. O melhor é continuar a jogar uns flippers nesta cidade louca. Não estou a conseguir muitos bónus. Não sei se é verdade, mas pareceu-me ver esta manhã a Barbara Gogan, ex-vocalista dos Passions. Será que ela está no meu hotel?

5.10.04

O quarto minúsculo

PROBLEMA 230
Eis-me já em Tóquio. Inteiro. São 15 horas (6 da manhã em Lisboa). Dormi a viagem toda, mas tal como temia aconteceram alguns problemas à chegada ao aeroporto enorme e incaracterístico de Narita. Não, não foi a borbulha que me acompanha. Ao passar pela alfândega fui interceptado por dois polícias (um homem e uma mulher) que ficaram com uma revista da Playboy que tinha comprado em Paris e a minha pasta de dentes. Será que há informações computorizadas de que sou um suspeito da rede terrorista? Mas como posso fazer um atentado com uma revista de gajas nuas e uma pasta de dentes que sabe a mentol? Bem, adiante, que o chamamento de uma cidade desconhecida é intenso – abro aqui um parêntesis para partilhar uma lista das coisas a fazer nos próximos dias: jogar nas máquinas de flippers num dos salões de pachinko; ir a um banho público; ver ao pôr-do-sol as gueixas partir ao encontro dos seus primeiros clientes; ir, à noite, a um karaoke (é hoje!) e de manhã ao mercado de peixe.
Fiz uma viagem entediante de comboio até Tóquio. 90 minutos. Tão entediante que recebi uma mensagem no telemóvel que me deixou ainda mais irritado. O Sporting empatou em casa 2-2 com a U.Leiria com um golo já nos descontos. E José Peseiro não pediu a demissão. A temperatura aqui em Tóquio está quente e há muita humidade. Quanto a mim, estou alojado num mini-hotel, num quarto minúsculo, com cama, TV, rádio, luzes e despertador. Da janela a cidade é uma montra de tecnologia de ponta onde silêncios imensos, verdes e românticos, alternam com bairros agitados, fábricas e estações de comboios. Logo à noite vou a Ginza, a zona mais conhecida de Tóquio e onde, dizem-me, se divertem os mais ricos. Uma confissão: garantem-me que o chá verde que tomei à chegada ao hotel vai ajudar-me a manter-me acordado. Por causa do jet lag. Até quando?
Uma mensagem colocada por cima da almofada chamou-me desde logo a atenção: uma instrução, em japonês e inglês, sobre o que fazer se ocorrer algum sismo de grande intensidade. Mas a minha primeira contrariedade foi a descoberta que preciso de um adaptador para poder ligar a máquina de barbear. Não posso queixar-me do serviço no Hotel. Foram de uma disponibilidade impecável. Bons a arranjarem soluções práticas para os pequenos inconvenientes da vida estes japoneses. Disponibilizaram-me um adaptador e não só: massagens, tatuagens, banho terapêutico. O problema é que combatem os meus problemas com uma eficácia tal que já começo a temer pelos meus problemas. Até amanhã.

4.10.04

A viagem até Tóquio

PROBLEMA 229
Quando lerem este escrito, queridas e estimados, espero estar dentro de um avião a caminho de Tóquio, depois de uma escala em Paris. Tal como prometi, levo comigo o DVD do “Lost Translation”. Mas também os cd’s de Momus, uma caixa de Kompensan e um frasco de Betadine. Tenho uma borbulha gigantesca no lábio que me dá um aspecto horrível (acho até que vou ter problemas quando chegar ao aeroporto de Tóquio. Ainda me tomam por um qualquer terrorista. Mas, pronto, isso depois logo se vê). O que espero mesmo é que quando chegar (já de madrugada em Lisboa, 11 da manhã em Tóquio) possa dizer que as hospedeiras me deixaram dormir durante a viagem toda. Estou cheiinho de medo…


3.10.04

A poíesis da escola

PROBLEMA 227
Onde está a minha professora de português na Josefa D'Óbidos? Inquieta-me o que leio: a minha escola surge como a pior no ensino do português.

PROBLEMA 228
Um beco. O miar dorido dos gatos. Sem saída. Com saída. A escolha. A dúvida. O caminho. Qual?. Um olhar fugaz. Corpos na sombra. Pouco mais. Tanto. O suficiente. A paz. Interior. Exterior. Difícil. A convulsão. A ausência. O mar. Ensinamento. A pergunta: onde está a minha professora de português?

2.10.04

A vida

PROBLEMA 226
perto longe
longepertoperto

longe
longeperto

P E R T O

L O N G E

1.10.04

A solidão

PROBLEMA 225
- Você nem imagina…A nuvem desceu e ninguém deu por ela. Fez cá um remoinho de frio! Porra! E já viu? Agora está calor outra vez. Ninguém percebe isto!

Nota: monólogo de um taxista numa viagem curta.