30.11.04

O alho, a carne, o espírito e a dúvida

PROBLEMA 351. Cada vez há menos pessoas que são como os alhos. Apesar do forte sabor e cheiro intenso, e de a digestão não ser fácil, são muito saudáveis. Cada vez mais entra-se num restaurante, pede-se bacalhau cozido com batatas e couves e servem-nos o prato sem vestígios de alho.

PROBLEMA 352. Vai-se andando é uma expressão corrente dos tempos modernos da sociedade pós-cérebro. O problema é que se fica sempre sem saber se se vai andando para melhor ou pior. Vai-se andando. Não se sabe é muito bem para onde. Vai-se andando. Desconfio que é assim uma coisa sem carne nem espírito.

PROBLEMA 353. Onde fica o centro de emprego? Sabe-me dizer onde é a estação de comboios? A que horas é o jogo do Sporting amanhã? Sochaux fica onde? Tem uma tesoura que me empreste? Há alguma estação de correios por aqui perto? Mas o que é que deu ao mundo hoje para eu fazer de máquina electrónica que responde a todas as dúvidas, com um sorriso de preferência, logo hoje que estou com pouca paciência. Na verdade tenho a maior dúvida de todas dentro de mim...

A bola da máquina de flippers

PROBLEMA 350. Passei a manhã a jogar flippers. Agarrado à máquina, durante horas, expeli raiva, suor, a cada golpe de rins para não a perder. Enfureci-me com a mola, os túneis de passagem, as mulheres que não se iluminavam e inviabilizavam os bónus. Durante horas consegui que a máquina não fizesse tilt, mas a pontuação nunca chegou a ser aquela com que sonhei. Por mais que me envolvesse com ela, e o tempo parecia uma eternidade, surgia sempre o momento em que a última bola me fugia e o jogo recomeçava do zero.

29.11.04

O beijo

PROBLEMA 349. Estamos todos obrigados a sorrir, a distribuir com simpatia palavras de circunstância nos almoços de aniversário das empresas onde trabalhamos. Eu, por exemplo, beijei uma senhora sem a conhecer de lado nenhum. Mais tarde, fiquei a saber que era a directora financeira. Está visto que manobras de curto alcance não convencem ninguém. Estamos a 29 de Novembro e o “pilim” ainda não caiu na conta.

Sentença

PROBLEMA 348.Tenho de ir ao dentista! Há já duas semanas que vivo com este pensamento, sempre sozinho com ele, sempre gelado perante a presença deste pensamento. Sempre curvado sobre o peso dele. Outrora estava cheio de fantasias, havia sempre festa. Agora estou cativo. E só tenho uma certeza, uma convicção. Um problema. Tenho de ir ao dentista!

28.11.04

A fuga

PROBLEMA 347. Estava aqui a ouvir as fugas de Bach quando uma borboleta entrou no meu quarto. Pensei nos meus problemas, nessa forma complexa e desgastante de ter permanentemente problemas. Sendo a fuga uma composição musical repetindo o mesmo tema ou motivo com variações livres, não tenho outra solução a não ser continuar com problemas. Afinal, sou uma pessoa inquieta e volúvel que prossegue inconstante as suas conquistas, como a borboleta vai pousando de flor em flor. Não creio que consiga fugir. A fuga para ser bem sucedida tem de obedecer a um plano rigoroso. E eu não sou homem de planos.

A máquina do café

PROBLEMA 346. Quem como eu está com uma dor de dentes acrescida de enxaquecas, uma descida ao café, logo pela manhã, ao domingo, é bem capaz de não ser uma boa ideia. Sensível à multiplicidade de sons que passam pelos meus ouvidos - cada vez mais toda a gente fala ao mesmo tempo – até o barulho da máquina de café, sobretudo aquela parte em que aquecem a água, me perturba. Pior: faz-me lembrar o aparelho que os dentistas nos colocam no canto da boca antes de começarem a escarafunchar cá para dentro.

27.11.04

A castanha pilada e o frio

PROBLEMA 344. Segundo uma antiga crença, para reduzir as hemorróidas basta trazer no bolso uma castanha pilada e substitui-la sempre que grete. Devia era ter reparado que tinha o bolso roto.

PROBLEMA 345. O frio costuma ser acompanhado por dias com menos horas de luz. O que, no meu caso, conduz ao recolhimento e a uma certa tendência para a melancolia, um estado de alma menos frequente nos dias de sol e com temperaturas mais altas

26.11.04

Absolutamente banal

PROBLEMA 342.
- Então, e ontem?
- Não aconteceu absolutamente nada. Ele estava bêbado e fez uma requintada borrada.

PROBLEMA 343.
- Há um cheiro no ar nestes últimos dias a urina e a perfume rasca.

25.11.04

Ciclo

PROBLEMA 341. Sete anos depois, uma mosca voltou a cair no meu prato de sopa.

A caixa de correio

PROBLEMA 340. A minha caixa de correio está entulhada de problemas, de panfletos de propaganda da sociedade pós-cérebro. Sobretudo de 24 de Novembro a 24 de Dezembro. Dar, receber e poupar na festa da família. Boas compras. Sempre. Prepare-se para uma escolha difícil. Escolha o seu novo telemóvel. Grande campanha de Natal. Última oportunidade de 2004. Termina a 31 de Dezembro. Aproveite os preços do Pai Natal. Aberto todos os dias domingos e feriados das 9.30 às 24 horas. Faça a volta saloia e pare na nossa loja, vai gostar. Não pense só em móveis. Distraía-se a ler algumas anedotas neste folheto, essa é a nossa intenção, pô-lo a sorrir. Não me deite fora, tenho algum interesse além dos móveis, anedotas, cozinha, receitas da avó Célia para o Natal. Jante calmamente e depois venha ter connosco. Cocktail de poupança com selecção de whisky. Pé de Porco. Abacaxi Del Monte. Fraldas Dodot Box Activity. Com oferta de impermeável. Reveillon no Brasil. Salvador, 7 noites. Fortaleza, 7 noites. Recife, 7 noites. Maceió, 9 noites. Porto Galinhas, 9 noites. É barato! Targa Visionary PCX 3200. Intel Pentium 4. Processador 540 com tecnologia HT. Novidade mundial. TV/Rádio. O novo centro multimédia “crème de la crème” tem todos os componentes importantes para os utilizadores profissionais e domésticos! Possibilidade de ligação sem limites. Passe um fantástico fim-de-semana na Quinta dos Lagartos, no Marvão! Quer dinheiro hoje. Informações. Mituxa Jardim. Não perca mais preços de arromba no interior. Café e grão. Café torrado moído tradicional. Papel Higiénico 2 folhas. Guardanapos color. Rolos de cozinha. Para a festa da família. 40 dias de promoções. Entremeada de porco. Pé de porco com osso. Costeletas mistas de porco. Novilho para estufar ou cozer. Picanha de novilho. Frango do campo camponês. Perna de peru. (no balcão de atendimento). Hambúrguer misto. Camarão cozido. Chocos frescos. Polvo fresco. Pescada inteira nº2, origem: Argentina. Miolo de camarão. Gel peixe. Pargo, origem: Brasil. Dourada. Preços incríveis! Plasma. TV. DVD’S. Rádio com CD. Leitor de CD. Secador de roupa. Massajador de pés. Batedeira. Termoventilador. Frigorífico. Webcam. Jogos PS2. Máquina digital. Impressora. Não sei o que fazer...


Relógio de cuco

PROBLEMA 339. Quem me dera se eu pudesse ser hoje como aquela relojoaria que tem um letreiro à porta a dizer Fechado para balanço. Mas não. Tenho um relógio de cuco avariado, sou um ser problemático, aberto a problemas e com uma vida imprevisível.

24.11.04

Cento e quarenta e quatro mil (144 000) problemas

PROBLEMA 338.
A 11 de Setembro de 2001 deu-se o atentado contra as torres do World Trade Center.
A 11 de Março de 2004 deu-se o atentado na estação de comboios de Madrid.
A 11 de Setembro morreu Yasser Arafat.
Ao problema 11 revelo-me.
O número onze, no seu significado místico, é a figura da transgressão da lei e também dos pecadores.
Tenho pela frente um longo caminho a percorrer que não sei se vou conseguir chegar ao fim.
O número cento e quarenta e quatro mil é a representação mística dos eleitos, dos que não se corromperam, “os quais não se contaminaram e em cuja boca não se achou mentira, pois são irrepreensíveis".

23.11.04

Caminho

PROBLEMA 337. Primeiro, reparo numa cigana sentada num carrinho de bebé com uma criança ao colo; mais à frente, chama-me à atenção uma velha sentada à porta de um prédio que mostra o tronco nu cheio de borbulhas vermelhas; por fim, um cão atravessa a rua atrás de um rato. Hoje não devia ter vindo pelo caminho habitual. Devia ter ficado em casa.

A experiência da preguiça

PROBLEMA 335. Aninho-me na cama. E aí fico. Está quente. Os cobertores são camadas de felicidade. Vou chegar tarde ao trabalho. Vou desculpar-me com o atraso do comboio. Ou que me distrai com conversas de café de manhã cedo.

PROBLEMA 336. A minha escrita é um laboratório. Uma escrita assim só pode ter problemas.

22.11.04

O mar e a consciência

PROBLEMA 333. O mar faz-se de inocente mas está à espera...

PROBLEMA 334. “Devido a um erro interno, não é possível processar a sua solicitação. Pedimos desculpas pelo transtorno. Tente novamente mais tarde”, disse-me a minha consciência quando a interroguei hoje.

A barba

PROBLEMA 332. O plano estava traçado, ao pormenor. Ia deixar crescer a barba. Eis senão quando esta manhã, ao olhar para o espelho, deparei-me com um problema: uns pêlos brancos a crescer no queixo. Resultado: fiz a barba. Talvez seja um dos sinais de envelhecimento. O outro é sentir que já conheci pessoas suficientes. O meu mundo emocional é uma aldeia.
P.S. A minha filha está desgostosa: "Pai, assim já não podes fazer de Pai Natal"

21.11.04

Beira-Mar,2 - Sporting,2

PROBLEMA 331. O Sporting está para o campeonato como a Europa para a geopolítica mundial. Sem estratégia, sem um rumo definido, sem carisma. À falta de uma liderança firme, dentro e fora de campo, o Sporting é um palco de desavenças. Vão-se perdendo pontos, não se aproveitam os erros dos outros. Peseiro é uma espécie de Durão Barroso no parlamento europeu, anda ao sabor das marés, mexe tarde e mal na equipa, não tira Rochemback com medo que este lhe mande outra vez tomar no cú, e continua a confiar no Ricardo que ontem mais parecia o Pai Natal a dar brinquedos às criancinhas. E ao melhor estilo europeu de julgar que tem o mundo na barriga ainda disse no final do jogo que gostou da atitude da equipa. “A exibição foi conseguida. Não nos vamos abater”. Pois. E o resultado?! Ganhámos?! Porra! Não tem vergonha...

Champô

PROBLEMA 330. Um cabeleireiro foi alvo de um assalto. Durou apenas 42 segundos. Só levaram meia dúzia de champôs. À porta da rua, porém, foi encontrada uma quantidade assinalável de preservativos espalhados no chão. A 6ª Divisão da PSP encerrou o salão de beleza e abriu um inquérito. Conclusão: apurou que o cabeleireiro era uma casa de droga e prostituição. A comissão de moradores, que alertou para os preservativos, sustenta que famosos costumavam ser clientes assíduos. Descobriu-se ainda que uma revista cor-de-rosa, muito conhecida, é patrocinada pelo dono do cabeleireiro.Tenta-se arranjar um fio de ligação nesta história toda. Mas continua-se sem saber a razão porque roubaram os champôs. Sabe-se também de outro caso. Após aturadas buscas, a PJ conseguiu a apreensão de uma quantidade de haxixe equivalente a cerca de 290 mil doses, guardadas, imagine-se, em frascos de champô. O objectivo era transportar por via terrestre do Sul de Portugal para Espanha. Dos cinco homens apreendidos pela PJ, um deles era um famoso cabeleireiro.
Entretanto, no sítio certo mas à hora errada fui tomar banho. Não sei se é da qualidade do champô mas tenho o cabelo todo encrispado.

20.11.04

A ferida

PROBLEMA 328. Modo de emprego: limpar e secar a região afectada. Retirar o penso da sua embalagem individual e em seguida retirar as tiras de protecção. Aplicar o penso rápido e pressionar nas extremidades para uma perfeita aderência. Sei de cor a instrução. A minha vida já não seria igual sem o penso que me ajuda quando tenho uma ferida. E não é só o “fechamento” da ferida que me importa, mas também o restabelecimento funcional da área traumatizada – neste caso específico como o de hoje, o dedo indicador da mão direita, aquele que “esculpe” as palavras.
O problema é que não tenho pensos em casa, o meu anjo da guarda foi passar férias à Patagónia, e estou a escrever com um lenço enrolado ao dedo. Pressinto que esta ferida não será curada tão facilmente como foi infligida.

PROBLEMA 329. Quem é este tal de Luís que deixou esta mensagem na minha caixa do correio?
"Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?"


19.11.04

O derradeiro passo

PROBLEMA 327. Não tenho a certeza. Parece que me viste. E eu não te vi. O mais provável é que não te tenha visto, embora também já não tenhas a certeza de que me viste. O mais provável é que nos cruzámos e não nos vimos. Porque nenhum de nós se atreveu a correr riscos. Não tenho a certeza.

Suspeita

PROBLEMA 326. Chegou o tempo. De quê?

18.11.04

24º andar

PROBLEMA 324. Deram-me um 24º andar. Nunca estive tão alto. A cidade vista daqui ganha uma estranha serenidade. As pessoas não passam de letras e sinais de pontuação. Tudo se assemelha a um texto escrito. Só quando há grandes planos é que tudo muda de figura. Sinto o universo em mim. E adormeço de cansaço. A ver os anúncios a piscar na televisão.

PROBLEMA 325. O senhor já vestiu essa camisola cinco vezes este mês, há uma semana que anda com as mesmas calças, esse pulôver é a quarta vez que o usa. Até agora só lhe conheço dois pares de sapatos. A cor das meias deve condizer com os sapatos. Tem de cortar o cabelo. E fazer a barba todos os dias.

17.11.04

Saída de emergência

PROBLEMA 322. A consequência terrível de ser educado num lar civilizado e afectuoso é que ficamos mal preparados para o mundo exterior.

PROBLEMA 323. O país está em guerra? Hoje de manhã, no comboio, sentou-se ao meu lado um ser com um porte físico incomensurável. Trazia tatuado no ombro nu, que fazia gosto em mostrar, a seguinte inscrição: “Vai-te foder”. Reparei ainda nas mãos grossas a que só faltavam ter uma Kalashnikov para agarrar. Quando largou um peido, pensei que tinha chegado a minha hora. Nunca olhei tanto para os dizeres inscritos na janela: “Saída de emergência”.

16.11.04

As árvores e os comboios

PROBLEMA 320. Das árvores ou daquilo que nos vamos esquecendo quase todos os dias. Uma árvore não cai à primeira machadada, logo são precisos vários esforços até se conseguir um objectivo. Uma árvore cai sempre do lado para onde está descaída, por isso agimos sempre segundo as nossas inclinações. Torna-se necessário cortar ramos das árvores para os frutos crescerem. Devemos, por isso, privar-nos de algo para mais tarde colhermos qualquer coisa.

PROBLEMA 321. Há ocasiões em que é preciso chegar a horas. Em que as coisas se nos revelam como os comboios. Não esperam para partir. E eu sou muito mau para chegar a horas...

15.11.04

O espelho, os jardins e o resto

PROBLEMA 317. O meu espelho fala. E em francês. Sabe-se lá porquê. Hoje de manhã, reparei que tenho mais cabelos brancos. E foi então que ele me disse: “Quando les cheveux commencent à blanchir, laisse la femme et prends le vin”.

PROBLEMA 318. Os jardins despoetizaram-se.

PROBLEMA 319. Procuro uma música verbal para tentar dizer as minhas emoções, o essencial de toda a vida humana. O resto é acessório.

14.11.04

Braguilha

PROBLEMA 316. A dificuldade de um homem no urinol relaciona-se com um dilema diário. Usar uma braguilha com fecho éclair ou botões.

Perdidos e achados

PROBLEMA 315. Que se passa com as pessoas que têm caturras? Encontro um papel colado a uma árvore com o seguinte dizer: "Perdeu-se uma caturra no dia 12 de Novembro na zona do Jardim da Estrela. Tem o corpo de cor cinzenta escura e a cabeça amarela com rosetas cor-de-laranja nas faces. Pede-se a quem tenha qualquer infromação sobre o seu paradeiro o favor de contactar os donos inconsoláveis. Dão-se alvíssaras". A um amigo de Sintra deparou-se-lhe a mesma situação. Colado a uma árvore, lê-se: "Fugiu caturra bébé (5 meses) cinza prata e amarela, cabeça amarela, no Algueirão. Muito meiga, deixou grande desgosto. Dá-se recompensa se necessário".


13.11.04

A vida ao microscópio

PROBLEMA 313.
- Pois. Foste a Roma e não viste o Papa.
- Pois. Fui a uma adega e não vi o barril.

PROBLEMA 314.
- Depois de tirar o curso de hiprocrisia e cinismo cheguei à conclusão que não me safo.
- Que vais fazer?
- Tirar outro curso.
- Qual?
- O da sobrevivência.

12.11.04

Ficar de molho

PROBLEMA 311. Pela segunda vez, num período de dez dias, comprei um vinho estragado na mesma mercearia. Da primeira ainda fui trocar de garrafa mas agora não tive coragem para o fazer. O dono ainda pode julgar que estou a agir de propósito. É o problema de ainda pensar que um inimigo de rosto sorridente e meloso é melhor que um adversário que inspire terror e ódio.

PROBLEMA 312. Entrei em pânico. A velha ordem da disposição das coisas no supermercado alterou-se de um dia para o outro. Quando algo de semelhante me ocorre a aflição é comparável a uma pancada de água apanhar-me desprevenido na rua. Fico de molho. Quem me manda a mim sair de casa para ir comprar fósforos e chupa-chupas...

Spot publicitário

PROBLEMA 310. Por vezes tenho a impressão que vivo ao ritmo de um qualquer spot publicitário. Tão preciso, ultra-rápido, prolífero e eficaz é aquilo que me reserva o dia que chego a casa exausto.

A mentira

PROBLEMA 309. Mesebel deixou um recado para Jamenel no espelho da casa de banho: “Se eu repetir trezentas e cinquenta e quatro mil vezes que te amo é verdade”

Quietação

PROBLEMA 308. Pauris seguiu à risca os conselhos, mas mesmo assim não ficou com o lugar a que se candidatou: recepcionista de um hotel.
- Atenção, use sempre roupas e sapatos de boa qualidade (noventa por cento da opinião de outra pessoa, acerca de nós, é formada no primeiro minuto e meio); vista-se de forma conservadora e sóbria (excepto no caso de cargos onde a criatividade seja preponderante), mas não exagere na cor preta, pois em demasia transmite uma imagem negativa; não abuse do perfume, da loção após barba e de jóias ou bijuteria; faça um bom corte de cabelo e cuide das mãos; apresente-se com naturalidade deixando transparecer uma imagem de profissionalismo; se levar óculos escuros nunca os use durante a entrevista, pois o entrevistador gosta de ver os olhos do candidato; evite levar para a entrevista sacos e volumes, pois poderá transmitir uma sensação de cansaço que, consequentemente, prejudicará o desempenho; antes da entrevista ter lugar deverá utilizar uma pastilha elástica se tiver problemas de hálito. No entanto, momentos antes de se iniciar a entrevista deverá desfazer-se da dita pastilha.
O problema de Pauris é que não sendo mudo, ao longo da vida só consegue manifestar-se por gestos. Julga-se com pouco ou nenhum dom para falar.

11.11.04

Sociedade pós-cérebro

PROBLEMA 306. Escreve Pacheco Pereira, hoje, no Público, a propósito dos telemóveis e das suas novas tecnologias. “Já não é o Big Brother a olhar para nós, somos todos a olhar para todos. É a “aldeia global”, mesquinha, pegajosa, que sabe tudo e espia tudo, toda contente com os aparelhos mágicos que tudo transmitem e recebem”.
Ora tenho para mim que a sociedade do espectáculo está a chegar ao fim. A sociedade onde predomina a exposição da vida pública e privada, a intensidade das festas, a proximidade sensual dos corpos, onde o único segredo é simples, proporcionar ao indivíduo a visão instantânea de que pode, e de que está, a participar em tudo, tem os dias contados.
Emerge uma nova velha sociedade. De vigilância, de controlo, de medos, onde o cuidado com a imagem para uma boa aceitação convive com a perversidade dos mecanismos de propaganda que visam domesticar o nosso espírito, violentar o cérebro e intoxicar o coração. Orientar os indivíduos sem direito ao desvio.
Eis a sociedade pós-cérebro.

PROBLEMA 307. Estou muito preocupado. Se a Costa do Marfim, a potência económica da África Ocidental e o maior produtor mundial de cacau, regressar à guerra civil provavelmente aqueles que adoram chocolate, como eu, sentirão os efeitos já no Natal. Desde sábado que as exportações de cacau pararam.

10.11.04

A morte de Vivaldi

PROBLEMA 302. Há terças-feiras que nos fazem pensar. Como a de ontem no Porto. Coisas que nos levam a ser de uma forma ligeiramente diferente. Encontrei um CD de Vivaldi que tinha perdido em Lisboa numa circunstância bizarra. Ao sair do carro, para comprar o jornal num quiosque ao pé da estação da Campanhã, reparei que havia qualquer coisa debaixo de um dos pneus. Era um CD de Vivaldi, o concerto nº 8 em la menor op.3 para dois violinos e o concerto nº10 em si menor op.3 para quatro violinos. O pior foi quando coloquei-o na aparelhagem do carro. Os primeiros dez minutos correram bem e criaram-me a ilusão de que estava em bom estado. Mas, subitamente, deixei de ouvir Vivaldi. Foram longos vinte minutos de silêncio. De repente, porém, Vivaldi ressuscitava aos meus ouvidos, mas com um problema ainda mais grave: ao som dos violinos juntava-se agora o de umas castanholas. Finalmente, aquilo que temia. A morte de Vivaldi. E da aparelhagem do carro.

PROBLEMA 303. No meio de uma arrumação em casa, perdi os jornais de 2 e 3 de Março de 1965. Quem me manda a mim reciclar a vida..

PROBLEMA 304. As luas e os sóis dos nossos dias estão sempre mais longe do que julgamos.

PROBLEMA 305. Estação de Entre Campos às 9 da manhã. Quase toda a gente anda com pavor dos assuntos a resolver e doida de vontade de gritar verdades.

9.11.04

Insónia (parte II)

PROBLEMA 301. Doem-me as costas.

A insónia

PROBLEMA 300. São 3.20 da manhã e estou num quarto de um hotel no Porto. Não tenho sono. Lá fora, o sossego é absoluto. Aqui dentro, não durmo. Procuro arranjar justificação para esta espertina. Trezentos problemas não resolvidos não podem dar um bom sono. A derrota do Sporting com o FC Porto (Peseiro volta a ser um pesadelo tal a forma encolhida como colocou a equipa a jogar. Um horror aquela segunda parte!) não me sai da cabeça; as cinco bicas que fui bebendo ao longo do dia despertam-me os sentidos; a francesinha especial com molho picante e batatas fritas que comi ao jantar, mais as cervejas e o uísque dão-me voltas ao estômago. A puta da televisão do hotel deixa-me nervoso por não conseguir colocar o Pay-TV a funcionar. A planta de emergência do Hotel que me tenta dizer o que devo fazer em caso de incêndio está a dar cabo do meu juízo. E depois, quando estou com insónias, passam pelo meu pensamento, transtornadas, coisas que me sucederam e não me sucederam, como aquela vez que espetei um prego no pé em Campo de Ourique ou aquela vez que estava a andar de bicicleta no Furadouro e fui embater contra um carro ou ainda aquela manhã em que estava a jogar à bola no Adro da Igreja de Santo Condestável e ao dar um chuto numa bola acertei numa senhora idosa que transportava na mão um garrafão de água e ela teve de ir ao hospital para ser suturada numa das mãos…não tenho sono... não durmo...

8.11.04

A máquina de barbear

PROBLEMA 299. Não acredito no horóscopo. Ponto final parágrafo.
O dia de hoje tem umas fortes características de afirmação pessoal e profissional. A minha máquina de barbear partiu-se. As suas capacidades estão a níveis bastante elevados e tudo deverá correr da melhor maneira. As peças desconjuntaram-se todas. Os relacionamentos sociais e familiares serão favorecidos em matéria de entendimento. Está tudo espalhado pelo chão da casa de banho. Níveis de confiança elevados. Sem forma de recuperar o dito objecto, resta-me limpar os destroços e deitá-los fora, no caixote de lixo. Boas perspectivas laborais no inicio da semana. Olho-me ao espelho e reparo que estou com um aspecto bárbaro. O amor não poderia encontrar um dia mais favorável. Sou avesso a lâminas de barbear.

7.11.04

A cadeia da vida

PROBLEMA 295. Estou com comichão na barriga. Mas há alguém que ainda está com mais comichão na barriga do que eu. E ainda há outro que está com mais comichão na barriga do que esse alguém. E por aí adiante numa cadeia em que alguém estará sempre com mais comichão na barriga do que o outro. Há-de haver, porém, nessa cadeia, alguém com uma tão intensa comichão na barriga que mais ninguém superará essa comichão. Então, esse alguém, estará irremediavelmente condenado a morrer de comichão na barriga.

PROBLEMA 296
- Tenho pena das pessoas boas
- Porquê?
- Mais cedo ou mais tarde vão ser fodidas.

PROBLEMA 297. Num qualquer recanto de uma sala exígua, no futuro. Diz Jamenel a Mesebel: “Fiz as escolhas certas na vida. O problema é que não fui aplaudido pelas pessoas certas.”

PROBLEMA 298. Porque é que sentimos sempre a necessidade de dar algum conselho para os problemas dos outros?

Santo Google

PROBLEMA 294. Tive um sonho profético. Cleópatra, uma jovem bloguista, escreve-me uma longa carta onde me avisa para o que está para vir: fascinada por leituras, aquela que tem o nome da rainha do Antigo Egipto, visita diariamente esta grande biblioteca do saber que é o motor de pesquisa Google que, tal como a de Alexandria, reúne o maior acervo de cultura e ciência que existiu desde sempre. O Google não contentou-se em ser apenas um enorme depósito de textos, mas por igual tornou-se uma fonte de instigação a que os homens de ciência, de letras e da vida desbravassem o mundo do conhecimento e das emoções, deixando assim um notável legado para o desenvolvimento geral da humanidade. Mas, diz-me ela, que as trevas estão a chegar. Esta fantástica colecção de saber, que reúne também obras consideradas perigosas, textos secretos que dão poder ilimitado, os segredos da alquimia, um dia será definitivamente aniquilada. Em 2646 da era cristã tudo desaparecerá. Antes disso muitos ataques vão destruir aos poucos este monumento que compreende um número ilimitado de grandes salas de leituras e quartos separados para os consultantes.
P.S. Em nota de rodapé só lembrar que a biblioteca de Alexandria foi destruída pelos árabes em definitivo em 646 da era cristã.

6.11.04

Pastilha elástica, papel higiénico e aspirina

PROBLEMA 291. A pastilha elástica, dizem os livros da especialidade, acalma a ansiedade, é um remédio santo contra os nervos, ocupa os hiperactivos em alguma coisa, faz com que os músculos da boca se exercitem. Por razão de ser aromatizada, a pastilha elástica deixa sempre a boca com bom hálito. O que eu não merecia era sentar-me na cadeira do meu trabalho e ficar com o cu das calças todo cagado por causa de uma pastilha elástica que algum engraçadinho deixou colada na cadeira. São os problemas de conviver com o chué [mesquinho, reles]: quando nos colamos ao acessório mais cedo ou mais tarde borramo-nos todo.

PROBLEMA 292. O papel higiénico foi inventado para fado pouco nobre. Antigamente, o povo estava habituado e mentalizado para utilizar jornais para um ofício do qual não convém atribuir nome ou designação em qualquer reunião de carácter político. Para que a adesão fosse total, foi preciso colocar uma menina a dizer: "Em casa da minha amiguinha Leslie existe uma coisa maravilhosa, mas o papel higiénico deles magoa..."

PROBLEMA 293. A aspirina é legítima herdeira de uma receita da clássica Grécia recomendada pelos médicos para aliviar a dor de cabeça. O alívio espalhou-se ao corpo todo, mas ao que consta o pó do remédio irritava o estômago e causava uma doença muito difundida no mundo antigo: as hemorróidas. No entanto, da frase antiga “Pós para esquecer a dor”, a pós-modernidade rapidamente converteu em comprimidos a solução mágica para "o fim de todos os males".
O fim de todos os males?! Quer-me parecer que os fármacos que vamos tomando ao longo da vida toldam-nos a mente…



5.11.04

A mosca e a nádega

PROBLEMA 289.
- Bzzz... bzzz... bzzz...
- Pára! Quieta! Deixa-me ler a “Metamorfose”.

PROBLEMA 290.
- Não há anjo da guarda que me valha.
- …
- Sou muito tímido.
- Que se está a passar?
- Estou a esforçar-me por arrebentar uma enorme borbulha na nádega.

O gelado Epá e o estado da Nação

PROBLEMA 287. O gelado Epá já não tem o mesmo sabor. A colher de plástico parece outra. A pastilha elástica já não é tão gostosa. O melhor já não vem no fim.

PROBLEMA 288. supérfluo. desnecessário. acessório. sobejo. escusado. vida supérflua. inútil. absurda. intervenções totalmente supérfluas. inúteis. ineficazes. ociosas. frase supérflua, porque repetitiva. discurso supérfluo. redundante. instrumentos supérfluos. pequenos objectos supérfluos. bagatelas. inutilidades. ninharias.

4.11.04

Interrogações à volta de um puzzle

PROBLEMA 283. Tenho perante mim apenas duas mil peças de cartão espalhadas ao acaso num saco de plástico, deixado à porta de uma casa qualquer, a quem tenho de dar um sentido. Embora o sentido esteja lá. Estou naquele ponto técnico em que ajudado por frascos de doce caseiro já utilizados em pequenos-prazeres-almoços entretenho-me a separar as cores e as unidades que constituem, digamos assim, a moldura do quadro final. É um princípio. A diferença, e o problema, é que nos outros puzzles havia uma imagem, uma ideia que me guiava. Neste não. Não sei qual será o retrato final.

PROBLEMA 284. Por vezes, tenho também a sensação de que passamos a vida a tentar edificar de uma forma contraditória labirintos de toda a espécie onde procuramos proteger o segredo que há em nós mas também impedi-lo de sair. Uma dúvida: a vida é um puzzle ou um labirinto?

PROBLEMA 285. Primeiro a imagem de Arafat a entrar num hospital de Paris, depois a notícia de que “está em estado de coma”, depois que “morreu”, a seguir que o estado de saúde do líder palestiniano está a "deteriorar-se". Tudo isto desperta em mim uma inquietação metafísica europeísta. Gostava de saber como vou morrer, em que circunstâncias, tendo a plena consciência de que a retirada da vida é um processo por etapas, submetido a sucessivas decisões e sujeito a factores imponderáveis. Como será o dia seguinte, já é uma questão universal.

PROBLEMA 286. Estou a ver Humphrey Bogart de copo de “whisky” na mão e Ingrid Bergman com um olhar tenso. Escuto uma música tocada ao piano. "As Time Goes By". Perco-me num instante que me parece uma eternidade. Casablanca é o destino obrigatório de quem está a fugir dos nazis na Segunda Guerra Mundial. É lá que o rancor de Rick (Bogart) vai reencontrar a beleza de Ilsa (Ingrid), anos depois de terem-se apaixonado e perdido em Paris. Os sentimentos voltam ao de cima. Ainda haverá tempo?

3.11.04

Marionetas

PROBLEMA 282. As ruas hoje parecem-me um labirinto, um emaranhado de trajectos sinuosos. Perdi-me. Até que encontrei um vendedor de marionetas. Estas encantadoras figuras manipuladas sempre me fascinaram. Hesitei entre um duende, uma bruxa, um diabo, um soldado, um vilão ou uma virgem. Desisti. Levei-me a mim.

2.11.04

As eleições nos Estados Unidos

PROBLEMA 281. A terra não pára de tremer no Japão. Ainda bem que fui lá no tempo certo. Para o mês que vem arrisco-me a ter de ir aos Estados Unidos, e desde ontem que não paro de tremer. A mulher de Kerry mandou-me um e-mail. Ela quer que eu vá aos “States” porque está interessada em entrar como accionista da SAD do Sporting. Convidou-me para ficar uma semana em casa dos Kerry, na Pensilvânia. Agora já imaginaram se Kerry ganha as eleições? Eu a falar com a primeira dama dos Estados Unidos?!…Não, não sou capaz. E depois há aquele aparato todo dos media…Não! Devo, por isso, aqui dizer, que já tomei as necessárias medidas de precaução para escapar ao problema. Melhor: para nunca ter esse problema. O melhor é mesmo ganhar o Bush para desgosto daqueles que estão a tentar fabricar a vitória do candidato que tem uma mulher, a nossa Teresa, dona do Ketchup, que quando abuso provoca-me imensas dores de barriga. Devo dizer porém que mandei um e-mail ao Bin Laden para ameaçar os EUA com um novo atentado. O rapaz portou-se bem e no outro dia lá apareceu na televisão, com a barba por fazer, mas certinho nas palavras. Espero que o medo do terror ajude os norte-americanos a votarem no cowboy texano na luta contra o mal. O mundo que me perdoe mas dá-me jeito que o "clown" do Bush continue como presidente dos Estados Unidos. Não é por aí que o mundo muda, acreditem em mim. O problema, e é o mais certo, é que ainda pode levar alguns dias, meses, até se saber o resultado das eleições.

1.11.04

Feriado

PROBLEMA 280.
- Amanhã é segunda feira.
- Segunda-feira? Amanhã é terça.
- Segunda! Hoje é feriado. Amanhã recomeço a trabalhar.

Nota: como a terça-feira pode ser um problema, ou um diálogo entre dois funcionários públicos sobre o regresso ao trabalho depois de um feriado, ou ainda as semelhanças entre um feriado e um fim de semana.