31.1.05

O que se diz

PROBLEMA 455. A minha gata ao menos só acredita no que cheira.

30.1.05

O zangão

PROBLEMA 454. Um zangão de origem desconhecida sobrevoou ontem o local de trabalho provocando a confusão nas várias secções. A iminência de um ataque cerrado pairou no espírito de todos. Alguns fugiram, outros ficaram paralisados como que entregues ao próprio destino. Até que alguém vestiu a capa da coragem e avançou. “Aí está mais uma missão para o SuperHomem”. Com o olhar fixo no inimigo, pegou no jornal e num gesto brusco e certeiro conseguiu colocar um ponto final no problema. A rotina voltou a instalar-se no local de trabalho.

29.1.05

Neura

PROBLEMA 453. Cretino! Burro! Besta! Calhau! Cavalgadura! Abécula! Estafermo! Chimpanzés! Ectoplasmas! Baqui-buzuques! Há dias assim em que mais pareço o Capitão Haddock. Tal como ele, sou impulsivo, generoso, passional ( especialmente com as palavras ) e tenho queda para a bebida ( principalmente o uísque). Há dias assim em que sou muito difícil de aturar.

28.1.05

A Queda do Império Romano

PROBLEMA 449. Mergulhado na crise, Portugal vive ao preço de saldo no ano inteiro. Este país é uma catedral das compras de ideias baratas e rascas.

PROBLEMA 450. Quatrocentos e cinquenta problemas. Estou muito perto da Queda do Império Romano dos meus problemas.

PROBLEMA 451. O gosto enciclopédico está a tomar conta de toda a gente. Basta dar uma espreitadela nos jornais e revistas. Oferecem colecções de tudo.

PROBLEMA 452. Não percebo porque dizem que está muito frio, um tempo desagradável, que devia chover. Já olharam para o céu? Tão azulinho. E a luz? Tão clara.

27.1.05

Os fios de lã

PROBLEMA 447. Tive uma experiência embaraçosa. Puxei um fio preto de lã de uma meia que se multiplicou exageradamente em comprimento. O fio afastou-me do essencial. Ultimamente a minha vida tem sido assim.

PROBLEMA 448. Até podem não acreditar, mas uma boa parte do meu tempo passei-o hoje ocupado a resolver este problema: o mundo é a minha representação ou há uma verdade objectiva, uma realidade imanente à coisa em si que existe independentemente de mim? Ou é as duas coisas? Duas situações que me ocorreram hoje: acordei com a sensação de o meu coração estar com batidas muito aceleradas. Tan-tan! tan-tan! tan-tan!Não sei se de facto era do meu coração o som que ouvia ou resultado das obras que o meu vizinho está a fazer na casa dele. E a meio da tarde, depois de comer uma barra de chocolate naquelas máquinas electrónicas que existem nos empregos para obrigar os trabalhadores a deixarem uma parte do ordenado que ganham na própria empresa que os paga, tive uma visão muito estranha: Schopenhauer andava à bulha com Kant no Jardim Zoológico, enquanto Mozart comia esparguete num restaurante italiano.


26.1.05

O ar que se respira

PROBLEMA 445. Esta minha tentação para nunca ficar do lado do juízo, mas sempre da asneira. “Para meu desencanto, o que era doce acabou. Tudo tomou seu lugar, depois que a banda passou. E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor” (Chico Buarque).

PROBLEMA 446. Portugal é um chinfrim. Temo que o silêncio que possa vir a seguir seja ainda pior.

25.1.05

Nervo

PROBLEMA 444. Na pressa e fragor da lide, o nervo das coisas dói mais. A forma desordenada e tumultuosa como a escrita hoje me surge, por exemplo. Não fui. Não estou. Não sou.

24.1.05

O caminho

PROBLEMA 442. O caminho mais difícil hoje é, a longo prazo, o mais fácil. Mas o que fazemos é ir sempre pelo caminho mais fácil. Se é a longo prazo... Por mim, estou a aprender alguma coisa acerca do labirinto que é viver numa cidade. Estou há horas a ver se consigo escapar-me. Vou desistir. É mais fácil.

PROBLEMA 443.Há dias em que é preciso descer às caves do Douro para encontrar o Céu. O problema é o dia seguinte.
porto_caves

"Uma vez que ignoras o que te reserva o dia de amanhã,
procura ser feliz, hoje.
Toma uma ânfora de vinho, senta-te ao luar e bebe
lembrando-te que, talvez amanhã, a lua te procurará
em vão."

(Omar Khayyam; "Rubaiyat, odes ao vinho")

23.1.05

Kant

PROBLEMA 441. Os modelos que me ensinaram na escola, os conceitos que fui estudando, as ideias a priori que fui assimilando, distorceram-me o quadro verdadeiro da vida tornando-a uma coisa diferente.
Kant A culpa é deste senhor!

22.1.05

Os nós

PROBLEMA 440.kno12-1b
O meu pensamento esteve hoje enredado.

21.1.05

Os erros

PROBLEMA 438. O erro hoje de Pauris foi querer ser honesto e prestável. É difícil viver de forma sensata ou plena.

PROBLEMA 439. Os problemas dos outros que me são familiares: “Tudo o que escrevi parece-me agora pura e simples palha (Tomás de Aquino no seu leito de morte); “Depois de ter tirado um ano de férias (de 15 de Setembro de 49 a 13 de Setembro de 50), de casar, de viajar um pouco pela Suíça, Luxemburgo, Holanda, Inglaterra e Bélgica, de tratar dos meus olhos, de trabalhar três meses na rádio, de mudar de casa, de me voltar a instalar em Paris – meti-me de novo ao trabalho, para mal dos meus pecados (Blaise Cendrars, num acarta datada de 16 de Setembro de 1950)

20.1.05

Escuridão

PROBLEMA 437. anican01
Está tudo às escuras e já não vou conseguir ver o filme. Faltou energia no prédio. E daqui a nada o portátil vai ficar sem bateria. Lá se foram os meus planos para esta noite. Nem cervejinha fresquinha vou poder saborear. Ora bolas!

19.1.05

O computador

PROBLEMA 436. Os problemas do meu computador à quarta-feira. Reparo que o meu ambiente de trabalho está muito desordenado e cheio de documentos que já não me interessam. Mas também acho que a solução não passa só por mandar para a reciclagem, muito menos dispor os ícones em grelha ou automaticamente. Esperem…reparo também que…onde está a minha barra de tarefas? E o ecrã porque está a ficar com manchas pretas? O meu computador deixou simplesmente de trabalhar. Não responde aos comandos do teclado e do rato. Estava a tentar gravar um documento, e zás. Ajudem-me, o meu PC ‘crashou’! Tenho de recomeçar tudo de novo!
P.S. A dor que é só minha está um bocadinho melhor

18.1.05

A prisão

PROBLEMA 435.Tenho cá para mim que o Céu não é um sítio, é uma situação de bem estar, de total comunhão, connosco próprios e com os outros. O Inferno é a ausência de tudo isso. São oito da manhã e a dor persiste. O frio que se faz sentir também não contribui em nada para me sentir um pouco melhor. O simples gesto de dar um nó nos atacadores do sapato do pé esquerdo é um suplício. Tenho de ir ao médico… não, espera. E o anjo da guarda? Não…ele não pode saber de nada. Que vergonha!... Já sei, digo que estive a jogar futebol e devo ter dado um mau jeito… Oh! Como está diferente o meu anjo da guarda! Os óculos ficam-lhe bem, e o cabelo encaracolado ainda melhor. Deu-me uma nova esperança.Quando as dores musculares e do corpo forem uma prisão, Ozonol gel e comprimidos, devolve a liberdade de movimentos.Será?
Foto_Ozonol

17.1.05

A dor ciática

PROBLEMA 434.
partitura
Depois de devorar literatura apropriada ao meu problema 432, estou inclinado a pensar que tenho ciática. Esta dor no nervo incomoda à brava! Amanhã se continuar a sentir dores vou ao médico, mas depois de comer uma sopa de espargos bem quente vou recorrer a um método antigo. Pode ser que resulte. Na antiguidade, acreditava-se que o som da flauta doce era capaz de curar crises de dor ciática, como atesta o filósofo grego Demócrito ao afirmar que muitas enfermidades encontram um remédio maravilhoso na harmonia das flautas. Para já, vou fazer duas coisas: colocar um toque novo no meu telemóvel – Flauta Mágica – e passar o resto da noite a ouvir a peça de Mozart. De há uns tempos para cá que o Wolfgang Amadeus murmura ao meu ouvido: "A felicidade consiste unicamente em imaginarmos que somos felizes".

A visão das coisas

PROBLEMA 433.
BREye

"If only you could see what I've seen with your eyes."
Blade Runner

Mais vale um erro apaixonado do que uma verdade seca.Mais vale um erro glorioso do que uma verdade ordinária.

16.1.05

O sonho

PROBLEMA 432. Sonhei que tinha acordado bem disposto, estilo Seven-up, Coca Cola, com rodela de limão e muito gelo. Estava leve, fresco. Que me apetecia jogar squash. Sentir-me em forma. Gabar-me disso. E uma vontade de jogar na bolsa, ganhar dinheiro e gastá-lo em coisas mundanas. Um desejo de ir ao Jumbo e encher o carrinho de bolachas de chocolate, queijinhos, presunto, marisco e latas de cerveja para abastecer o frigorífico. Quando acordei de facto, é que me apercebi que o meu sonho era um grande engano. Estou com uma horrível dor na zona inferior das costas que se estende ao longo da perna esquerda.

15.1.05

A barata

PROBLEMA 431. Não era deste tamanho. Mas foi assim que a vi quando deitei a mão ao bolso de um casaco velho e a agarrei. Assustadora. Terrível. Abdominável barata. Fez-me lembrar que há noites em que é assim. Em que somos como estes insectos velozes e muito vorazes, em geral domésticos e de costumes nocturnos. Condenados por um gesto inoportuno e desajustado a ficar num beco sem saída.

14.1.05

O cão

PROBLEMA 430. Fui assediado por um cão desconhecido. Primeiro, começou a cheirar-me as meias e as baínhas das calças. Acossado de desejo procurou ter relações sexuais com a barriga da minha perna esquerda.

13.1.05

O problema de Portugal em 2005

PROBLEMA 429.

Lei

PROBLEMA 428. A lei só tinha entrado em vigor há um minuto quando um jovem de 22 anos foi apanhado a acender um cigarro, para acompanhar o café, num bar de Nápoles. Mas o pior está por vir.Os portugueses vão começar a sentir-se culpados se acenderem um cigarro,conhecer pessoas novas será punido com pena de prisão. Hoje vi um médico gordo na televisão a dizer que temos de comer mais arroz integral.

12.1.05

Choldraboldra

PROBLEMA 427. Em 1887, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, o Conde de Ficalho e outros, descontentes com o ambiente político, social e artístico da época (“uma choldra”, chamava Eça a Portugal) formaram o grupo Vencidos da Vida. Fizeram-no a uma mesa do restaurante Tavares Rico. Em 2004, a uma mesa do Jaguar, vejo Portugal uma salgalhada, uma mixórdia, uma confusão de gente de má índole, uma balbúrdia, uma algazarra. Irra! Uma choldraboldra este Portugal!

A dança da chuva

PROBLEMA 426. Será que me vão chamar de louco se for para a varanda executar durante 40 minutos a dança da chuva?

11.1.05

O aquário

PROBLEMA 424. Tudo para mim hoje é frio, enxaqueca, náusea. Mantenho-me à espreita da melhor oportunidade para trocar de país. Este corpo está a necessitar de um pouco de sol. De renascer.

PROBLEMA 425. Desafiaram-me para ter um aquário. "O meu aquário é um minioásis. Tem flores, pedrinhas, um imenso areal, sol artificial 12 horas por dia, não chove". E se em vez de trocar de país, trocasse de bicho de estimação?

10.1.05

Oito da manhã

PROBLEMA 423. Às oito da manhã, uma bica é o equivalente a um míssil americano ou israelita a cair no deserto. Às oito da manhã, ver uma senhora sentada no café a ler um livro policial não augura nada de bom.

9.1.05

Livro

PROBLEMA 422. Sou equivalente a um livro com um milhão de páginas. Ninguém tem pachorra para me ler até ao fim.

8.1.05

Consciência

PROBLEMA 421. Depois de já ter dito neste meu confessionário cobras e lagartos de José Peseiro, a grande vitória do Sporting frente ao Benfica fez com que ficasse com problemas de consciência. Afinal, o homem até está a fazer um bom trabalho. O Criador, que nestas coisas anda sempre atento, já se encarregou de me castigar pelo tamanho pecado que cometi. Estou rouco e mal consigo falar.

7.1.05

Planos

PROBLEMA 419. Traçou um plano. Ler sempre os mesmos seis livros, misturar as personagens e inventar outros livros. Um livro por dia. Ao sétimo dia descansa.Terá tempo?

PROBLEMA 420. Fiz mal em iniciar este blog, mesmo muito mal. Mas agora já é tarde de mais para me lamentar O mal está feito. Nem sequer sei o que me levou a iniciá-lo. Foi por acaso. Nunca pensei em fazer um blog diário, até porque um diário deve permanecer secreto e por isso seria preciso escondê-lo de todos. A obrigatoriedade de escrever todos os dias um problema, ou mais, é desgastante. E quando não conseguir escrever nada, como vai ser? Desejo ficar sozinho a escrever. Raramente tenho essa ocasião de poder estar só. Por vezes tenho de recorrer à mentira para escrever.



Identidade

PROBLEMA 418.
Olhos: castanhos
Cabelo: preto
Peso: 70 kg
Altura: 1.75 m
Sinais identificadores: no dedo anelar e no pénis
Número de dedos nas mãos: 10
Número de dedos nos pés: 10
Inteligência: por apurar

6.1.05

Gripe

PROBLEMA 417. Poderá existir algo de mais vazio que o estado da minha cabeça a 6 de Janeiro de 2005?

5.1.05

Vírus

PROBLEMA 416. O Comité Nacional para derrubar os problemas à quarta-feira declara que não conseguiu levar por diante o propósito atrás enunciado.

Sistema nervoso

PROBLEMA 415. Devia-se reprogramar o sistema nervoso do ser humano. Estamos aprisionados em circuitos velhos e gastos que só criam miséria, conflitos, preconceitos, guerras, estupidez.

Conspiração

PROBLEMA 414. Quando indivíduos da mesma profissão se juntam ao almoço é para conspirar. Sejam políticos, jornalistas, empresas petrolíferas, grandes grupos de Comunicação Social, advogados, prostitutas, chulos. Seguem os exemplos, por exemplo, dos leões que conspiram contra as zebras, e dos pardais contra as minhocas.

4.1.05

Manias

PROBLEMA 412. Estou num dia daqueles em que irrita-me quando em cada restaurante, em cada loja, vejo uma televisão por perto, ou oiço uma música qualquer. Até nos elevadores! Que horror! O mundo deve ter-se hoje juntado para me tramar. Eu quero ouvir as conversas dos outros! Eu quero ouvir a minha própria voz!

PROBLEMA 413. Espero que a minha gata nunca venha a saber que eu vi hoje uma senhora a passear um gato na rua com trela.


3.1.05

Procura-se

PROBLEMA 411. Onde está o meu anjo da guarda? Um amor terminado expõe-se numa frase.

O meu pensamento

PROBLEMA 410. É só uma suspeita, mas o abalo sísmico asiático pode ter acelerado permanentemente o meu pensamento, três milionésimos de segundo mais rápido, e feito com que o meu cérebro oscile enquanto penso. De há uns dias para cá, quando ando a pé dou por mim a tropeçar nos meus problemas. E nos dos outros.

2.1.05

As paredes e o herói

PROBLEMA 408. Não pude deixar de ouvir a discussão dos meus vizinhos. Não pude deixar de ouvir os silêncios de dor de cada um deles. As paredes dos prédios modernos são promíscuas.

PROBLEMA 409. Desejo ser aquele herói que fui aos cinco anos, de espada empunhada a desafiar os maus. Mas que desejo mais absurdo...

1.1.05

Lava-loiças

PROBLEMA 407. Acordei acometido de um estranho embaraço, um irritante mal-estar, que poderei atribuir ao regresso amanhã ao trabalho ou a uma dor de cabeça insuportável. Mas também pode ter a ver com o facto do lava-loiças estar imundo, com copos, pratos e talheres sujos e amontoados, restos de comida, guardanapos amarrotados.