28.2.05

Confissões

PROBLEMA 508. Confissões ao balcão de um café, hoje bem cedo. “Só me lembro dos problemas de manhã. De tarde já estou extasiado. E à noite já nem sequer me lembro de mim”.

PROBLEMA 509. Apetecia-me dar a volta à Europa de comboio. Já imaginei até o percurso. Nem que depois descubra que por muito menos possa ser feliz também.

27.2.05

A rotina e as férias

PROBLEMA 506. A maioria das pessoas daqui a dez anos. O mesmo emprego. O mesmo lugar. A mesma rotina. Tudo igual. Apenas porque se mantêm seguras.

PROBLEMA 507
- Precisas de férias
- Mas acabei de passar férias.
- Então faz como eu. Passo o tempo a tirar férias.
- Com que frequência?
- Uma dúzia de vezes por dia. Tenho um lugar privado. Quando sinto que as coisas começam a ficar apertadas para o meu lado tiro cinco minutos e vou até lá.
- Onde fica esse lugar?
- Na minha cabeça.

26.2.05

O baloiço

PROBLEMA 504. Empurra! Empurra! Com mais força! O movimento do baloiço é a metáfora da vida.

PROBLEMA 505. Num dado momento um de nós muda, torna-se diferente. Seguimos direcções opostas e o encontro já não é possível.

25.2.05

A tosse

PROBLEMA 503. Jamenel sabe que Mesebel já não vai andar muito tempo neste mundo. A tosse não a larga. Ganha a cada dia uma vida própria. De uma vaga farfalheira evoluiu para uma luta pessoal pela vida. A música agora é outra.

Pausa

PROBLEMA 502. Segunda: bife na pedra. Terça: favas com chouriço. Quarta: leitão da Bairrada. Quinta: cozido à portuguesa. Sexta: dobrada. Sábado: enguias fritas com açorda. Domingo: bacalhau cozido.

24.2.05

O medo

PROBLEMA 498. Debato-me com esta dúvida, problema, inquietação, sei lá mais o quê. Serei um cavaleiro nobre, um eterno peregrino ou um fugitivo assustado perseguido pelo espectro da morte?

PROBLEMA 499. “Pela selva passa suavemente uma sombra e um suspiro
- É o Medo, ó Pequeno Caçador, é o Medo”

A Canção do Pequeno Caçador, de Rudyard Kippling

PROBLEMA 500. Pauris tinha um pesadelo constante. Sonhava que estava numa casa a ruir. Quando morreu a casa ruiu.
P.S. Mesebel e Jamenel há muito que não sonham. É a sorte deles.

PROBLEMA 501. Ao que parece há um lugar no cérebro onde se aloja o medo, uma das emoções humanas mais poderosas. Se o medo tem então uma base química porque raio não há comprimidos para acabar com o medo?

23.2.05

As moedas de cinco cêntimos

PROBLEMA 497. Quando vou ao café de manhã tenho o hábito de pagar a bica com os trocos que tenho à mão. Procuro repartir ao máximo os cinquenta cêntimos. As moedas de cinco cêntimos são sempre as vítimas deste meu impulso. Não resisto à tentação de me ver livre delas. Não sei é porque carga de água isto me está a acontecer: de há uns dias para cá quanto mais moedas de cinco cêntimos despacho mais volto a ter a carteira cheia delas, as minúsculas, feias e horríveis moedas de cinco cêntimos.

O texto

PROBLEMA 496. 19
Pilhar palavras, saquear ideias, desviar pensamentos, subtrair frases, usurpar conceitos, arrebatar imagens. Olhar para o papel e ver uma camisola de lã. A noite está complicada.

22.2.05

A voz da consciência (4)

PROBLEMA 495. "Não te sintas agrilhoado. Para lá do teu metro e setenta e cinco, do corpo que carregas contigo, do bilhete de identidade que te circunscreve, de um telemóvel que te faz sentir a ti e aos outros à tua volta números, tens-me a mim. Ouve o que te digo: está-te nas tintas. Faz”

21.2.05

A bola de ténis

PROBLEMA 494.tenis
Uma bola de ténis no ar, eis como me senti hoje todo o dia.

O caos

PROBLEMA 493. Fiquei impressionado com a confusão de destroços, pedaços de madeira, resmas de papel amarelecido, bidões esburacados, fardos de palha, vidros partidos, pneus desfeitos que encontrei hoje à noite à porta de uma empresa de advogados. O que se terá passado aqui?

O lobo

PROBLEMA 492. O lobo persuadiu as ovelhas a entregarem-lhe os cães que as guardavam. Lixou-se.

20.2.05

Hoje estou assim (6)

PROBLEMA 491.
folha

P.S. Tudo começou com a minha ida na véspera, em dia de meditação, à Casinha Velha onde algumas das coisas boas da vida me deixaram de tal forma nas nuvens que acabei por ficar em branco em relação ao resultado do Sporting em Leiria (0-0).

19.2.05

Deus

PROBLEMA 490. E se de facto Deus não existe? Melhor: se ainda não existe. Se é qualquer coisa que está em processo de por vir.

Perda

PROBLEMA 489. Tenho a sensação que perdi a alegria infantil de andar nas ruas.

18.2.05

Hoje estou assim (5)

PROBLEMA 488.kafkadesenhos

17.2.05

Dores de crescimento

PROBLEMA 487.Uma dor na perna sem razão aparente levou-me a ir ter com o meu anjo da guarda. Porque já tinha tido anteriormente e houve a possibilidade de ser ciática. Mas afinal, ”são dores de crescimento”. Dores de crescimento?! Com esta idade? “Pode acontecer em qualquer idade”. Mas eu já cresci o que tinha a crescer. “Anima-te. Talvez estejas ainda a crescer noutras áreas. Olha que isso é bom sinal”. Ando muito preocupado. Será verdade o que o anjo da guarda me disse?

O peixe (corrigido)

PROBLEMA 486.
180802parablennius001
Sou parecido com este peixe, achas?, um parablennius gattorugine. Que raio de nome. Por causa do olhar? O olhar, deixa ver. Esgazeado. Incomoda-te? Vou fechar os olhos, então. Está melhor assim? Não?! Então semi-cerrados. Que tal? Bom, é melhor decidires-te porque desta vida de aquário é que não posso escapar.

16.2.05

Três pensamentos

PROBLEMA 484. Ocorreram-me hoje três pensamentos não sei porquê. Muito menos sei se são originais ou uma reminiscência das minhas leituras. Da minha voz da consciência não são, de certeza. Lembrei-me deles, estava a beber o café e a ouvir cinco chefes a discutir sobre nada.Apenas a vaidade de estarem a fazer barulho. O primeiro: o mundo é apenas mudança e a vida apenas opinião.O segundo: por vezes fazemos as coisas como se fossemos viver dez mil anos. Finalmente o terceiro: não há nada mais odioso que uma amizade de lobo.

A voz da consciência (3)

PROBLEMA 485. ”Em lado nenhum encontras retiro mais tranquilo, mais isento de agitação que no teu próprio interior. Fica aí algum tempo e renova-te. Exclui o aborrecimento e volta curado das tuas irritações”

15.2.05

Hoje estou assim (4)

PROBLEMA 483.triffids
”I live under glass in the British museum
I am wrinkled and black, I am ten thousand years
I once lost in business, I once lost in love
I took a hard fall, I couldn't get up

I was frozen out in the lean winter years
When the dollars were few and the faces were mean
I was frozen in business and frozen in love
I took a ten minute nap, man I never woke up

I had no luck in business and no luck in love
I guess I'm a fool, you could say I'm a chump
I'm shrivelled and black and my bandage is torn
But my fingers are cold, won't you please take me home?

Old and lonely, dirty and cold
I am the Jerdacuttup Man”

(David McComb)

14.2.05

A goma

PROBLEMA 482.
- Um ano passa num instante.
- É uma goma que se come enquanto se espera pelo comboio.

O calo

PROBLEMA 481. Não fossem as curvas e as rotundas e tudo era mais perto e bom caminho. Aquilo que demorava a percorrer em 7 minutos e 42 segundos, faço-o agora em 14 minutos e 54 segundos. Isto vem a propósito porque estou com um calo no calcanhar que me está a incomodar e a dificultar
calos

13.2.05

A dança

PROBLEMA 479. “Foi apanhada uma estrela a fugir da nossa galáxia. Em tempos, a estrela teve uma companheira girando uma em torno da outra. A dança, no entanto, levou-as para demasiado perto do buraco negro que existe no centro da Via Láctea. Enquanto a companheira foi para lá sugada a estrela foi atirada para fora da galáxia” (Notícia verdadeira publicada no jornal).
A agitação incessante da vida nas grandes cidades, onde se faz a reciclagem diária de uma série de movimentos cadenciados ao som da música da sociedade de consumo, uma dança preversa, letal, faz com que todos os dias milhares de pessoas sejam protagonistas do mesmo que aconteceu às estrelas da notícia do jornal.

Cães de fila

PROBLEMA 480. Todos na fila. Na padaria. No talho. No hipermercado. No tribunal. Na estação de comboio. No aeroporto. No dentista. No oculista. Para receber pagamento. Para reclamar aumento. Para comprar peixe. Para comprar carne. Para votar. Para não votar. Na bomba de gasolina. No metro. No hospital. Para fazer o totoloto. Para alugar um dvd. Na paragem do autocarro. Na tabacaria. No cinema. No teatro. No concerto. No futebol.No restaurante. No café. Para a ortopedia, ginecologia e alergias. Para fazer cocó e xixi. Somos todos uns cães de fila.

12.2.05

Cíumes

PROBLEMA 478. O meu anjo da guarda reclama atenção e questiona-me o porquê da voz da consciência. O meu anjo da guarda e a minha voz da consciência serão compatíveis?

A mente

PROBLEMA 477. A mente é a porta de entrada para tudo. A minha cabeça está hoje cheia de gente.portasaida

11.2.05

A voz da consciência (2)

PROBLEMA 476.grilo Não me larga. A voz da consciência não me larga hoje. Não me larga. “Não te esqueças de ir a Campo de Ourique fazer uma visita ao senhor Eduardo! A tua irmã bem te avisou! Parece impossível ainda lá não teres ido. O senhor está à tua espera desde o Natal!"

A voz da consciência (1)

PROBLEMA 475. Favas com chouriço ocupa uma posição elevada na minha lista de pratos preferidos e de boas recordações. Mas o número um continua a ser o bacalhau. Bacalhau cozido, assado, com natas. Bacalhau. Acontece que o leitão assado da Bairrada, estaladiço e com aquele molho, ai, ai, mais as batatas fritas às rodelas, está desde ontem a bater à porta da minha consciência como que a dizer-me. “Então e eu? Já te esqueceste quando eras menino, na Bairrada, ao pé das cozinheiras a comer a canja e a ver o leitão a assar. Precisas de rever essa tua lista!"

10.2.05

As fases da vida

PROBLEMA 473.
Á bê cê
dê é efe
gê agá i
jota ele eme
ene ó pê
quê erre esse
tê u vê
xis zê.

Estou na fase ene ó pê, quase, quase, quê erre esse.

PROBLEMA 474.
Áenetêóeneió. Eu chamo-me assim?

9.2.05

Guerra e Paz

PROBLEMA 472.
- Como te chamas?
- Legião. Sou muitos. E tu?
- Soldado. Sou um de muitos. Parece que temos um problema…
- A Guerra?
- Sim. Parece que ninguém quer ir.
- Está a acontecer algo de estranho.
- O quê?
- Ninguém quer ir.
- Onde?
- Ninguém quer.
- Não percebo.
- As pessoas estão a desistir…De tudo. De tudo.
- É um começo…

(eis que entra o Mundo, velho e cheio de ciática. E manhoso. Plagiando, ainda bem, velhos sábios:
- Vou-me, a desoras, por vielas tortuosas e sombrias,
como em busca de alguém que me assassine…)

- Está a acontecer.
- O problema é se estará mesmo a acontecer, ou é mais um fase em que o verbo enuncia uma acção meramente possível.

Hoje estou assim (3)


livro
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PROBLEMA 471. As origens dos meus dilemas encontram-se hoje neste livro oferecido num dos natais da minha juventude pela senhora minha mãe. Sou uma mistura do velho Thibault, um conformista social e religioso, e dos seus dois filhos: Jacques, um revoltado espiritual, e Antoine, um médico prático e enérgico.

8.2.05

A febre no desfile de Carnaval

PROBLEMA 468. Estou com febre, isto é, a temperatura hoje da minha vida está acima do normal, sofro de uma exaltação momentânea, assalta-me um desejo ardente, um frenesim. Mas será que ninguém tem mais nada de interessante para me dizer do que aconselhar-me o cêgripe. Sê o quê? Não, obrigado. Já deviam ter percebido que a febre que me consome é outra.
cegripeantigripal

PROBLEMA 469. Passou por mim uma abelha, um campino, um pirata, uma bailarina, uma fada, um duende. E vi a Branca de Neve de mão dada com o Zorro, o Diabo a falar com um Anjo. E se eu me mascarar de silêncio? Haverá alguma máscara?

PROBLEMA 470. Naquele riso de uma criança, depois de a avô lhe ter dito que tinha cara de panqueca, pareceu-me ouvir Mozart.

7.2.05

Hoje estou assim (2)

PROBLEMA 467. borboleta

6.2.05

A bicicleta

PROBLEMA 466. Abandonada ao pé de um caixote de lixo, uma daquelas bicicletas dos acrobatas no circo prende a minha atenção. Parece-me estar num estado normal, pronta a ser utilizada. Apetece-me correr o risco. Sim ? Não? Hesito. Estranho não estar ali o fio do arame. Mas porque é que me fui lembrar logo disso?

5.2.05

O café e as portas

PROBLEMA 464. “Saboreie um momento de relax máquina funciona.” O que inventam para nos sentirmos bem no local de trabalho… só que o café hoje não me sabe tão bem como das outras vezes.

PROBLEMA 465.
Trancaste-te em casa
E aí ficaste anos a fio
Nem deste conta
Que as portas desapareceram
Mas as chaves permaneceram
Reconstruo a tua casa
E a tua memória
Fechada fica
No meu coração
Ainda guardo as chaves

4.2.05

Hoje estou assim (1)

PROBLEMA 463.
fio da navalha

3.2.05

Frascos de doce

PROBLEMA 462. Alguém deitou fora dezenas de frascos de doce. De morango, framboesa, abóbora, laranja, tomate, melão, cereja, gila. Todos ainda dentro do prazo de validade. Há dias pouco doces.

Pestanas

PROBLEMA 461. Desconfio que os meus olhos não vão ter sono tão cedo. As minhas pestanas estão hoje muito meditativas.

2.2.05

O trabalho

PROBLEMA 460. "Se o trabalho é uma coisa tão boa, por que é que os ricos não ficaram com todo para eles?"
(provérbio haitiano)

As certezas

PROBLEMA 459. ti2540handcuffs
Estou cada vez mais tentado a deixar as algemas das minhas certezas de lado e a confiar na minha intuição. Preciso é de encontrar a chave.

1.2.05

O futuro

PROBLEMA 457. Se as aves descendem dos dinossauros, o que se seguirá ao ser humano? Uma coisa sei eu: a fadiga faz-nos parecer uns com os outros. Enquanto assim for, não acredito muito no futuro.

PROBLEMA 458. Daqui a mil anos isto que nos parece tão importante estará completamente esquecido. Quanto muito dois ou três eruditos travarão uma discussão acérrima sobre o assunto. Mas mais nada.


O elevador

PROBLEMA 456.
- O elevador está a cair...
- Não caias tu noutro lado qualquer. Este elevador está velho mas não cai.