30.9.05

A estante dos livros

PROBLEMA 824.Eu estava a adivinhar que isto de arrumar os livros ia resultar em tragédia. Estou há horas para ver se me decido. Qual a ordem de arrumação a estabelecer? Por ordem alfabética (mas depois já não posso ter Kafka ao lado de Musil) ou de forma aleatória (e vou conseguir saber onde eles estão?) E depois como resolver o problema do tamanho dos livros, nem todos são idênticos (tenho por exemplo Jorge Luís Borges grande, médio e pequeno). E encosto-os para o fundo da estante? (fica um vazio muito grande...).

29.9.05

Arregaçar as mangas

PROBLEMA 822.Com o calor que está decidi, vejam lá, vestir uma camisa com mangas. Tudo porque acordei com o pensamento de colocar alguma ordem à literatura toda lá de casa. "Hoje tens que arregaçar as mangas e arrumar os livros", disse-me durante o sono o meu anjo da guarda desaparecido de combate há já algum tempo.

PROBLEMA 823.
- Por onde tens andado, anjo da guarda?
- Por aí para nada. Por isso voltei. Problema?
- De certa forma sim. Essa ideia de arregaçar as mangas...

28.9.05

Os idiotas

PROBLEMA 821. Conheço um sítio invadido por idiotas. "Somos mais idiotas que nunca. Ninguém tem vida própria, ninguém constrói um mínimo de solidão. O sujeito morre e mata por ideias, sentimentos, ódios que lhe foram injectados. Pensam por nós, sentem por nós, gesticulam por nós." (Nélson Rodrigues, O óbvio ululante).

27.9.05

Naufragar

PROBLEMA 820. Todos querem. Mesmo que não o digam. Mesmo que seja por um dia.

26.9.05

A linha de comboio

PROBLEMA 819. Andei perdido nas ruas estreitas de uma cidade estranha. Estou com saudades da minha linha de comboio. São dias perfeitos ou imperfeitos, tanto faz, aqueles que passo na minha linha de comboio. "Pouca terra pouca terra não quero ser aquela que erra. Deus também anda de comboio" (Samuel Úria, o caminho ferroviário estreito)

25.9.05

O lugar

PROBLEMA 818. Haverá um lugar "sem jornal, sem manchete, sem televisão, sem rádio", onde os sentimentos não rendam primeiras páginas, entrevistas, reportagens? Tu és capaz de ter razão. Porque será que só faço perguntas às quais já sei a resposta.

24.9.05

O tempo

PROBLEMA 817. "Há lugares desertos onde os olhos não podem navegar. Quem se detém neles detém o universo. Há lugares desertos que cumprem a função de ponte. Quem se detém neles dificulta o passo do universo", (Chantal Maillard, Benarés). Não sei porquê mas ao ler este texto num museu algures longe de Lisboa lembrei-me do Museu da cidade onde há uma foto que ainda hoje me intriga muito. Que faço eu do outro lado da rua no principio do século passado?

23.9.05

Os nomes

PROBLEMA 816. Seisdedos e Diocleciano.

22.9.05

A corrida

PROBLEMA 815. As memórias da minha infância não são uma história linear. Surgem aos pulinhos. Hoje uma, amanhã outra. É uma corrida mais cansativa.

21.9.05

O menino e o adulto

PROBLEMA 814. O menino que há em mim está nas profundezas do adulto que sou.

20.9.05

Compreensivo

PROBLEMA 813. O compreensivo não reage. Aceita.

19.9.05

Origem

PROBLEMA 812. E se eu for feito de uma maneira que não quer entender as coisas tão depressa?

18.9.05

Relógio

PROBLEMA 811. Chego sempre atrasado a tudo. A tudo da vida e do coração. Se calhar é por não usar relógio.

17.9.05

Perguntas fundamentais

PROBLEMA 810.
- Porque é que as girafas têm um pescoço tão grande e nós não?
- Quem inventou a dor?
- Porque passamos a vida a fingir que somos fortes?

16.9.05

código

PROBLEMA 809.
Atraso atrás
traz irás
e não voltarás

15.9.05

O pesadelo

PROBLEMA 808. Um grupo de cavaleiros árabes montados em cavalos e exibindo sabres e lanças entram pela casa dos meus avós. Tento fechar as janelas. Escondo-me atrás de um sofá. A cena repete-se vezes sem conta. Transpiro cada vez mais. Já não sei se estou acordado ou a sonhar. Não me lembro como tudo isto termina. Só sei que volta.

14.9.05

O livro

PROBLEMA 807. Ainda ando à procura do livro onde gostaria sempre de voltar. Gostava nos últimos anos da minha vida ler sempre o mesmo livro. Ene vezes. Mas como não sei quando vão ser os últimos anos da minha vida, o melhor era começar desde já.

13.9.05

Contraditório

PROBLEMA 806. Hoje não escrevo. Não me importava que isso acontecesse mais vezes.

12.9.05

O mar

PROBLEMA 805. O mar gostava de falar com as pessoas. Um dia, começou por perder a voz, depois as palavras, a memória. E ficou triste. Caíram-lhe lágrimas. As ondas cresceram tanto que acabaram por fazer mal à pequena povoação.

11.9.05

Zulmira

PROBLEMA 804. Somos um povo de poucas Zulmiras. Se me lembro bem, gostava deste nome quando tinha sete/oito anos.Conhecia o nome, não a pessoa. Ainda hoje é assim.

10.9.05

As leis da emoção

PROBLEMA 803. Que influência terá a distância nas leis da emoção?

Criação

PROBLEMA 802. Aos três anos comecei a inventar o mundo. O problema é que pensei que seis dias eram o suficiente. Ao sétimo podia descansar, finalmente. Enganei-me.

9.9.05

Os duelos

PROBLEMA 801. Antigamente os duelos eram por questões supérfulas, mesquinhas. Mas num duelo que se prezasse, um dos opositores tinha que morrer. Morrer mesmo. Mas muitas outras vezes os dois acabavam por quinar. Hoje já não é bem assim. Há palavras que se dizem que são balas cravadas no corpo e deixam marcas para sempre. Matam-nos no momento. E o pior é que continuamos vivos. É o pior que pode acontecer.

8.9.05

Guerra e Paz

PROBLEMA 800. "Quero descobrir. Tudo. Quero descobrir por que sei o que está certo e faço o errado. Quero descobrir o que é a felicidade e qual é o valor do sofrimento. Quero descobrir por que razão os homens vão para a guerra e o que têm no seu interior quando rezam a Deus. Quero descobrir o que as pessoas sentem quando dizem que amam (...) Acho que deve ser difícil para ti perceberes uma pessoa como eu. Tu sabes exactamente o que deves fazer e fazes isso mesmo. Tu estudas e ficas esclarecido. Eu estudo e fico confuso." (Tolstoi, "Guerra e Paz")

7.9.05

O confuso

PROBLEMA 797. Já lá vai o tempo em que sucumbia à ânsia de colocar ordem nas coisas, discriminá-las de um modo coerente. Agora estou ao serviço do confuso que constitui as coisas - elas se ajeitam e moldam por elas próprias. Por exemplo: hoje acordei tão bem disposto, com uma sensação de vazio tão boa, tão boa que se fosse antes desconfiaria que algo tinha acontecido. Ou com a ordem do mundo. Ou comigo. A seguir, fui à rua e duas senhoras no intervalo de cinco minutos tropeçaram em alguma coisa e caíram ao chão. Se fosse antes, a tese de que a ordem do mundo estava a alterar-se teria ganho consistência. Mas agora não. Ao serviço do confuso, o único problema é dar algum sentido a isto que vos estou a contar. Como acordar às quatro da manhã e não saber onde se está. Se acordado ou a sonhar.

PROBLEMA 798. Aquele meu outro não desiste e não pára de me sussurar: "Je suis en train de faire uma revisão pormenorizada de tudo".

PROBLEMA 799. Estou cá a achar que a matéria dos meus sonhos merece hoje um título latino: "Carpe Diem". Mesmo que os dias nem sempre nos empurrem para isso.

6.9.05

As rãs

PROBLEMA 796. As ruas estão atolhadas de morenas todas vestidas de top e apanhadas desprevenidas com a chegada da chuva. As bebidas servem-se nos bares cheias de matéria alcoolizante para que as sensações sejam apanhadas desprevenidas neste tempo de matrizes e raízes quadradas a torto e direito. Salta-se de um pensamento para o outro como rãs num lago. Porque não se estuda a relação entre a Lua e o sorriso da moça do bar?

5.9.05

As pedras

PROBLEMA 794. Uma pedra quando cai é a força da gravidade ou é a pedra que se libertou do seu próprio destino?

PROBLEMA 795. Os meus pensamentos, as minhas sensações, hoje não correm tranquilamente como um rio. Ocorrem-me, caiem em mim como pedras.

4.9.05

Pai

PROBLEMA 790.
- Pai, quero um cão. Mas primeiro que tudo um telemóvel.

PROBLEMA 791.
- Pai, se sou constituída pela mesma matéria que produz uma batata eu podia ser uma batata. Por isso, as coisas fazem muito pouco sentido.

PROBLEMA 792.
- Pai, olha ali para os pinguins. É esta conformidade de vivermos todos em fila indiana que me aborrece.

PROBLEMA 793.
- Pai, gaivotas na praia a tomar banho com as pessoas significa que vem aí uma tempestade?

3.9.05

Labirinto

PROBLEMA 789. Uma vez seguido um caminho, ele imaginava enleados atalhos. O problema era seguir o caminho. Quase sempre dava conta que tinha entrado num labirinto. E o problema é que gostava disso. Raramente se desembaraçava dele.

2.9.05

Erro

PROBLEMA 788. Já me enganei ene vezes na contagem dos meus problemas. Tenho a fraqueza de corrigir a contagem. Mas não o devia fazer, eu sei, eu sei...não sei onde isto me vai levar...

1.9.05

a factura

PROBLEMA 787. Alguém ligou para a EDP e deu a leitura - errada - do meu contador de electricidade e de gás. Resultado: recebi um factura astronómica para pagar. Como se de um cenário kafkiano se tratasse, alguém parece ter usado o meu código. Bastou um erro num número para o equívoco. O problema, entretanto, ficou resolvido. Quer dizer, garantiram-me que sim. Mas não podia haver outra maneira de começar as férias?